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Textos

24 semanas e um maço de cigarros

Desde aquele “até um dia” que passava naquela rua, onde ficava o seu restaurante favorito tentando encontrar o seu sorriso, no meio da multidão que frequentava a zona. Nunca o encontrei. Sentava-me num snack bar, pedia cerveja e ali ficava por horas, fumando mais um maço de cigarros, até ser-me anunciado o fecho do local. Como estava tão difícil encontrá-la. Queria poder olhar-lhe uma última vez, mexer-lhe no cabelo, sentir o seu toque, cheirar-lhe o perfume doce que sempre carregava. A sua gargalhada ecoava, por vezes, na minha cabeça deixando-me ainda mais maluco. Porque tinha-lhe feito sofrer se a amava intensamente?

Por seis meses continuei a mandar-lhe mensagens, tentando que ela voltasse para a minha vida, tendo a noção que as visualizava, porém não retribuía. Era um sinal e eu nem percebi. Ou percebia e ignorava.

Continuei esperando ansiosamente o nosso reencontro, mas não foi de todo como idealizei. Ela não correu para os meus braços, nem tampouco abriu o sorriso enorme que tinha. Ao contrário de tudo o que imaginara, olhou-me com repugnância e bateu os pés na calçada até mim, de braços cruzados, indignada. Levantei-me, sorridente, por finalmente estar à sua frente. As palavras que proferiu saíram com amargura e mesmo que entendesse que merecia cada uma, doía muito. O “eu não te amo mais!” remoía-me por dentro, destruindo tudo o que encontrava pelo caminho. A rua encheu, como sempre, devido à hora de almoço. E deixei-a ir, sem nem antes despedir-me. Quando corri para alcançá-la por entre a multidão vi o que pedia para não ver. Ela beijando outro homem. Quando separaram os lábios, o sorriso que conhecia apareceu, reluzindo para que todos pudessem observar e de mãos dadas seguiu caminho, que não era mais o nosso.

Permaneci no mesmo lugar, incrédulo e sem conseguir gesticular uma palavra. Aquela imagem, em repetição na minha cabeça, perdurou até ficar sozinho na calçada. Retornei ao bar. Pedi uma garrafa de vodka e mais um maço de tabaco. Despejei todo o conteúdo verde na minha garganta, fazendo quase com que a mesma derrete-se com a sustância. Enchi meus pulmões de fumo preto tóxico e deixei-me ficar.

Foram 24 semanas em que todos os dias consumi um maço de cigarros. A cada instante era-me roubado anos de vida, porém já nada importava, quando era ela a minha razão de viver, de deixar a porcaria do tabaco e dos vícios. Tudo tinha um fim e eu sabia disso, só não entendia como o nosso tinha sido tão trágico, mas tinha a certeza que eu terminaria de forma mais estrondosa. E não era culpa dela: era minha.

Sofia

18 anos e parece que já vivi mais do que isso. Afirmo que sou o que escrevo. Não há forma mais simples e mais elaborada de me descrever. Escrever para mim é viver. É libertar-me de tudo o que me incomoda, magoa e me impede de crescer. Apesar de micaelense, o meu coração sempre irá pedir pelo Porto, sempre será lá o meu ponto de reencontro, de recomeço. É lá onde tudo faz sentido. É lá onde espero viver. O resto? Basta lerem e descobrirão. 

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