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Textos

O passado tornou-se presente

Eu sempre murmurei para mim mesma que não precisava de voltar a ser como era, que nunca mais iria pegar numa lâmina sequer, que não iria querer sentir aquela sensação de “consolo” após cortar-me. Eu murmurei tanta vez tentando acreditar nisso. Deixei de acreditar. O mundo parou. A gota de água não caiu, ficando suspensa no ar. O relógio deixou de contar. Estava apenas eu e uma data de gavetas aonde podia encontrá-la. Encontrar a minha antiga vida, a infelicidade que arrumada estava há meses e a insanidade não era dos atos mais felizes a fazer, mas eram os que necessitava, naquele momento.

Encontrei-a. Comecei a chorar. Não estava contente por encontrá-la. Custava-me saber que agora seria muito difícil voltar atrás de novo. Volta-se uma vez, mas não da segunda. Eu tinha consciência disso. Mas foste tu que me obrigaste! Foste tu que arruinaste o meu mundo, mais uma vez. Eu odeio-te por isso, porém odeio-me ainda mais por ter cometido os mesmos erros. Os mesmos erros antigos que deram-me a passagem garantida, para o inferno que se seguiu. Questiono-me se alguma vez estiveste no fundo. Sim, mesmo lá no fundo, sem luz, sem pessoas a procurar-te e a chamar-te, onde apenas a escuridão reinava e tu eras a pior pessoa do mundo. Tu nunca soubeste o quão pesado era teres nas costas a decisão de acabar com tudo ou não.

Da última vez que tentei acabar com esta mísera vida que carrego, falhei. Como culpo-me por isso. Plantaste algo em mim, a mesma flor não floresceu, tirando-me a vontade de sorrir de novo, e agora plantas somente ódio e despreocupação no meu ser.

Pensava que aguentava. Que aguentava a tua indiferença, a tua despreocupação e a falta de carinho. Mas não aguento. Não mais. Cansei-me de carregar estas dores que só abrem feridas maiores, a cada dia e não há nada que as faça curar.

Burra fui eu. Achei que eras o antídoto para a minha destruição. Mal sabia eu que eras apenas mais uma desilusão. Carregavas a faca que daria a pior apunhalada da minha vida. Levantei-me coxeando e sorri. Estava tão enfeitiçada por esses teus olhos verdes e esse sorriso falso que caí que nem uma tola. Tão burra. Todos diziam que fazíamos um ótimo casal: estavam tão enganados quanto eu.

Preferia que jogasses veneno na minha comida que assim doeria menos. Bem menos do que dói agora. Eu sei que te darei a vitória de mão beijada, mas já nem quero saber. Só quero descansar em paz, longe de ti e de todos esses demónios que visitam-me todas as noites. Eu não consigo dormir sequer. Apenas preciso ir. Os bens materiais nunca foram necessários, os amigos verdadeiros levo comigo no coração e deixo este mundo com a culpa de não o ter aproveitado bem. Esqueci-me: tu não queres saber.

Já nem dói tanto. O sangue escorre, o relógio começa a funcionar, a gota de água já caiu, o mundo seguiu, a minha vida desfaleceu e eu finalmente morri.

Carolina

Pessoa doce e amarga; aquela que perdoa, mas não esquece quem lhe magoou;que ama com todo coração, mas que ninguém deseja ser foco de seu ódio. É aquela menina/mulher que deseja revolucionar o mundo e concretizar os seus sonhos.

46 comentários em “O passado tornou-se presente”

  1. Infelizmente sei o que é estar no mesmo lugar. É muito triste. 🙍🏻‍♀️ Mas nem sempre tudo está perdido. Há que ter isso em mente. Escreves tão bem! 😯 Não tinha ideia. Beijinho 💋

  2. Fiquei verdadeiramente arrepiada. É um assunto forte que muita gente sabe dele, mas na realidade não quer falar sobre o mesmo.
    Está de génio, adorei!

    Um beijinho,

  3. Que texto pesado!!
    “Tu nunca soubeste o quão pesado era teres nas costas a decisão de acabar com tudo ou não.” Achei essa frase bem forte.
    Na maioria das vezes as pessoas não tem noção do que causam nas outras.
    Não sei se esse texto é sobre você ou não, de qualquer forma forma fique bem ♥

    https://heyimwiththeband.blogspot.com/

    1. A intenção era mesmo essa. Por acaso foi um texto que escrevi durante uma crise/ataque de pânico. Já passei pelo mesmo algumas vezes. É bem complicado e pesado mesmo. Muito obrigada 💛 beijinhos

  4. Eu cheguei a me arrepiar aqui. A saliva travou na garganta. Que texto intenso e delicado. Uma pena tantas pessoas viverem uma realidade parecida com a do conto 🙁

  5. Nem sei o que senti com esse texto.. acho que me faltam as palavras, o chão.. tudo..

    Um texto tão real que nos faz sentir mesmo na pele de quem, infelizmente, passa por essas coisas. Não é fácil… não o é e infelizmente eu quase já cheguei a esse ponto..
    Não é bom sentir essas coisas mas é bom que escrevas essas palavras de forma tão crua e sincera para que muita gente possa perceber que não é ‘cobardia’ ou ‘desespero’.. é preciso muita coragem e muita mágoa mesmo para cometer um erro desses. Não é ‘egoísmo’ ou irresponsabilidade como muitos pensam… é uma decisão triste que nem toda a gente é capaz de o fazer e, infelizmente para os que o são, nem imagino o desespero por que passaram para conseguirem tamanha coragem!

    Hoje, que estive tão perto dessa realidade, sei que não é tão fácil como pensava. Não é o caminho mais fácil, mas sim o único que resta a muita gente. E maior parte não por culpa deles, mas por culpa de outros que acharam ‘banal’ e ‘coisas de criança’ .. que não souberam dar valor e apoiar no momento certo, e que depois lamentam o que aconteceu.

    Em nome de todos os que já passaram por esses sentimentos te agradeço por mostrares essa realidade ao mundo.

    1. Infelizmente querida são mais as pessoas que enfrentam isso todos os dias, do que as que imaginamos. Passei pelo mesmo e sei bem o quão é difícil engolir isto. É algo que a sociedade sempre irá dizer que é em busca de ter atenção, quando não o é. Só quem passa por isso sabe o quão mau é estar no fundo e não conseguir sair dele. É como se uma bolha nos colocasse sempre no fundo do poço e não conseguimos vir para cima. Cortar não é solução. Depois de cometermos esse erro, torna-se mais evidente que de facto, não era o melhor caminho.

      Ainda bem que agora estás melhor querida! Qualquer coisa podes sempre falar connosco. Beijinhos 😚

  6. Vim aqui de propósito por causa deste texto. Nunca pensei que fosse fazer tanto sentido quanto faz. Não gosto de pensar sequer em encontrar uma lâmina de novo. Reviver toda a dor e pessoas pelas quais fiz o que fiz seria horrível. Quanto mais se voltasse a fazer isto. Sempre achamos que não iremos precisar fazer isso de novo e depois de algum tempo já estamos prontos a entrar neste “mundo terrível”. Nunca sabemos quando iremos voltar a ter a decisão de acabar com tudo nas nossas mãos e é terrível pensar nisso sequer. Obrigada Carolina por este texto incrível. Beijinho

    1. É mesmo Inês. Ninguém pondera voltar a ter esta decisão em mãos outra vez. Voltar a isto é algo terrível. Há que ver melhor as situações para que coisas dessas não voltem a acontecer. Obrigada eu por teres cá vindo. Beijinhos

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