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Ela aprendeu a viver para si

Ela sabia que ao entrar para aquela vida não tinha mais retorno, sabia que mesmo que ela quisesse sair já tinha se habituado àqueles cheiros inibriantes e aquelas músicas bastante sensuais. E mesmo se algum dia calhasse de voltar para sua antiga vida de mordomias e regalias que o dinheiro de seu avô podia dar, ela teria de se adaptar outra vez.

Alguns rostos conhecidos já tinham frequentado aquele bar e perguntavam-na o porquê dela ter deixado tudo para trás, no fundo ela sabia a resposta mas apenas dava de ombros e fingia que não se era uma pergunta importante. 

Seu serviço era para além de servir mesas, limpar os balcões, abastecer a adega. Ela era a melhor ali. E o pior disso tudo era que ela gostava disso. 

“Viveu por tanto tempo no passado que quase privou-se do presente.”

Quem a via, podia dizer que de todo o seu eu anterior somente sobrou-lhe a beleza. Isso ela fazia questão de preservar. Já os bons modos, a etiqueta, isso tudo se foi para o c*ralho. Agora, o sotaque francês apenas servia para levar os homens ao auge para satisfazer apenas o prazer de si mesma.

No princípio de tudo ela achou que se era momentâneo e que quando sua melhor amiga (justamente a que seu avô odiava) a levou até ali pela primeira vez não mais havia de voltar, porém ao ver que as mulheres tinham a sua liberdade de ir/vir e fazer o que bem entendessem, ela percebeu que ali era seu lugar. 

O poledance para ela se era libertador e ela não se sentia assim há tanto tempo que chegava a sorrir para o nada enquanto dançava, os homens “babavam” por sua beleza e pelo sorriso que rasgava o seu rosto, achavam que se era para eles quando na verdade o sorriso era para si mesma. 

Mas naquela noite, ela não desejava deitar-se com homem algum, queria apenas dançar bastante, beber algumas doses de vodka, deitar-se em sua cama abraçada a própria solidão e esquecer-se do que tanto lhe atormenta: a doemça terminal de seu avô.

Apesar de tudo que ela faz, de todas as atitudes que são repudiadas pelos outros, ela começou a praticar o ato do perdão, teria de o praticar pois percebeu há um tempo que o rancor somente estava a fazer mal a si mesma. Contudo quando foi até sua antiga casa para perdoar seu próprio avô pelo o que ele a fez, ele apenas lhe disse que não precisava do perdão de uma puta. Logo, deu as costas e voltou para o bar. 

“Dizem que lar é o lugar que te faz bem, logo para ela o bar era seu lar!” 

Tinha sua consciência tranquila que ao menos a sua parte ela havia feito, mas apesar de tudo ela tinha um coração tão bom que não deixava de se preocupar com o único familiar que lhe sobrou. Para ela não existia limitações se ao acaso ela tivesse de se reecontrar com ele outra vez.

Por fim, ela sabia o porquê de ter escolhido aquela vida de boemia. Simplesmente, lhe apeteceu ser feliz, sem amarras sociais; simplesmente, livre. 

Rosa Branca

Por muito tempo o tom de vermelho-sangue se fez presente na minha vida, por hora limito-me a usar boas doses de solvente-reconstrução para tornar-me branca outra vez.

2 comentários em “Ela aprendeu a viver para si”

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