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Três da tarde e uma praça vazia

–  Vem ter comigo à praça onde nos conhecemos. Três da tarde. Não te atrases.

Não era muito larga. Redonda. Com uma fonte no meio. Fonte dos desejos diziam ser. Se concretizava desejos, também os retirava e ela, aquela mulher de cabelos morenos encaracolados era a prova disso.

Tinha atirado uma moeda, em simultâneo com o seu namorado, há uns meses atrás. Qual o desejo? Um amor duradouro. Um amor eterno.

Ela tomou banho, fazia dias que o seu corpo não sentia a água a escorrer.  Vestiu a sua melhor roupa. Um vestido preto com uma pequena roda e de mangas compridas. A licra dos seus collants deslizava pelas suas pernas, substituindo a cor lívida da sua pele por um tom mais escuro. Pronta, admirou-se ao espelho. “Uau”, pensou. Há muito que a sua imagem não ganhava brilho e compostura.

Agora, na praça, sentada no beiral de granito da fonte, olhava impaciente para o relógio da torre que guiava os descoordenados humanos que por ali passavam a correr. As suas recordações invadiam-na. Conheceu o seu grande amor naquela praça. Quando ele andava à procura de moedas de um cêntimo na fonte para terminar o troco de um café. O namoro deles começara ali e terminara também. Soou as três da tarde. Não havia sinal dele.

-São três da tarde. Tenho pavor a esta hora. Por favor, vem!

Cinco. Dez. Vinte minutos passados não havia sinal dele. Levantou-se e olhou para o café onde costumavam ir lanchar. Lá estava ele! Apressou o passo e bruscamente o parou. Lá estava ele, sim! Com outra mulher. Com outro amor. A fonte retirara-lhe o seu único desejo! Ele viu-a. Sorriu-lhe com malícia. O tempo parou. A praça ficou vazia. Tudo girava em seu redor. Deixou-se cair no chão. Estava sozinha. E a chuva caía.

 

Mar Rodrigues

A vida não me dá voltas. Sou eu que dou voltas à vida. Sou rapariga que se diz irmã do Sonho pela luta constante em conseguir concretizá-los. Sou filha do Mar, só com suas ondas me sei acalmar. Sonho que um dia atravessarei o Tejo a nadar. Mas por agora apenas vos deixo a doçura do meu “Escrevinhar”.

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