Foto: Arzu Cengiz / Unsplash
Textos

2 da manhã

E mais uma vez, chegara às 2 da manhã. A conversa estava mais que fluída, mas eu sabia que ela iria trabalhar cedo e que eu também, e por mais que nos custasse – pois sabia que lhe custava também – tínhamos de despedir-mos para podermos dormir. E assim foi. Esperei até ver que ela já não estava mais online, deixando que passassem uns minutos, caso ela voltasse. Não reavendo-a de novo, desliguei a Internet e deitei-me na cama, desligando a luz de presença, até então acesa.

Revia e refletia sobre o que havíamos falado naquele dia. No fundo, eu sempre soube, desde que comecei a falar com ela, que a pessoa mais forte de nós dois, não era eu. Considerava o meu passado duro, porém o dela daria um livro de mil páginas, ou mais. Como ela tinha vivido tudo isso e ainda estar aqui, apoiando-me, de sorriso no rosto e se levantando todas as manhãs? A minha mente, ainda que diferente da sua, não era tão forte. Havia coisas que ela tinha vivido que nem por sombras, aguentaria. Há coisas que ela vive, que eu não suportaria. Mas ela levanta-se todos os dias, esperando um dia melhor e eu tento contribuir para que isso aconteça, para que sorria pelo menos um pouco, durante/após um dia de trabalho árduo. E chateio-a com o meu trabalho, porém nunca ouço um “estás a aborrecer-me”.

Foram muitas vezes em que ignorei as suas mensagens pois sabia que as minhas questões poderiam abrir uma ferida recém-sarada. Mas também foram muitas as vezes, em que enviei-lhe músicas, de forma a que entendesse os meus sentimentos por si, ouvindo apenas que o nosso gosto musical era igual. Magoava-me por dentro e para não deixar que isso afetasse a nossa conversa, tentava mudar de assunto. Até hoje, tenho um sexto sentido que diz-me que ela entende, mesmo que ela não o diga.

Tentei meditar, não conseguindo. Estava ansioso, frustrado e ao mesmo tempo, não conseguia definir numa palavra o que poderia estar a sentir pela miúda, que nem a voz tinha ouvido. O que sinto afinal? Porque simplesmente partilho tudo? Será que é por saber que me apoia e me entende? Se assim fosse, tinha ficado dependente dos meus outros amigos.É diferente – sinto-o a crescer. Quando apenas está a escrever de manhã, um nó cresce na minha garganta. Aqueles três pontinhos a mexerem-se por segundos, faz o coração bombear mais depressa e quando finalmente a mensagem aparece, desiludo-me. A esperança de ver “sonhei contigo” ou “sinto algo por ti” não terminou, porém sendo uma rapariga magoada e atordoada pelo seu passado, sei que os seus sentimentos são guardados a sete chaves. Sei o medo que sente por pensar que irei perder o encanto que sinto por si, por vê-la na minha frente. E são tudo tretas. Tretas que nos afastam, que nos impedem de abraçar-nos, de falarmos com a nossa própria voz, de olharmos bem fundo dos olhos, um do outro. Mas são essas tretas que também fazem-me apaixonar perdidamente por ela.

Afinal, eu sei o que sinto, mas não se é reciproco ou não.f$da-se, esta merda sufoca e rasga-me por dentro. No entanto, lá continuo. Mais um dia amanhece, em que posso fazer a diferença, em que posso mudar a sua forma de pensar, em que espero pacientemente uma demonstração da sua parte. E mais uma vez, as 2 da manhã chegaram.

Carolina

Pessoa doce e amarga; aquela que perdoa, mas não esquece quem lhe magoou;que ama com todo coração, mas que ninguém deseja ser foco de seu ódio. É aquela menina/mulher que deseja revolucionar o mundo e concretizar os seus sonhos.

4 comentários em “2 da manhã”

  1. Gosto de textos narrativos e gosto de escrever textos narrativos. Nos ajudam a sentir a profundidade e enxergar os detalhes na história.
    Sobre a angústia de sentir e não ser correspondido, faz parte da vida, principalmente se se é adolescente, né? Mas é tão bom sentir. Estamos vivos para isso.
    Beijos!
    Borboletra

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *