Foto: Siddharth Bhogra / Unsplash
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A rotina tomou um rumo diferente

Todos os dias, ela levantava-se com imenso custo, mas não reclamava. Os cereais coloridos eram os mesmos há anos e até então não a aborrecia. O hábito já era tão grande que já nem o açúcar presente nos mesmos a incomodava – sendo que antes colocava sempre mais leite para dissolver o mesmo. O duche era rápido, o cabelo secado como dava e a roupa escolhida no dia anterior era facilmente vestida. O perfume de sempre invadiu suas narinas e ao reparar nas horas, agarrou na mala e saiu correndo. O metro não iria esperar por ela. Chegava sempre na hora de embarque. Sentava-se num banco, quando havia um disponível e colocava cautelosamente a sua playlist favorita em repeat e os auscultadores cor de mel.

A sua mente ficava presa. Não divagava, nem sequer pensava no dia que se iria decorrer no trabalho, que mantinha há 5 anos consecutivos. Com o ebook aberto que nem sabia o nome ou lia, fingia estar ocupada na sua vida enfadonha e monótona. Por vezes, quando a música tinha uma melodia mais baixa, o ruído e as gargalhadas no fundo se ouviam. Nem por um mero segundo desviava o seu olhar do aparelho tecnológico para olhar as pessoas. Limitava-se apenas a existir e a estar ali, esperando por mais um dia de trabalho, que por sinal seria longo.

7h25 o metro parava na estação que deveria sair. Levantou-se e seguiu correndo para a loja de roupa. 18h45Estava atrasada. Fora um dia incomum. As clientes insistiam num diálogo demorado, contando as suas histórias de criança, da tia, da filha, da sobrinha e por aí seguia. Sem nunca tirar o sorriso dos lábios tinha ouvido cada palavra, murmurando vez ou outra uma palavra de encorajamento, para que comprassem as peças e fossem embora, contava os segundos. A loja ainda não estava arrumada sequer. O nervosismo crescia, estando totalmente perceptível nos seus movimentos rápidos e desajeitados.

19h15 estava despachada. Correu, não apanhando o metro. Teria agora de esperar mais 15 minutos pelo próximo. Já deveria ter jantado e arrumado a loiça lavada. O seu pânico era transparente. Sair da rotina para ela era não estar no controle de sua própria vida. Rezava e contava os minutos, enquanto tentava acalmar-se ao som de Rolling Stones. Ao ver a luz no final do túnel retirou desajeitadamente os auriculares, pousando o telemóvel no banco de madeira escura. Retirou o seu passe, entrando no metro. Antes que a porta pudesse fechar-se, um homem alto e barba perfeitamente bem aparada, entrou com o seu telemóvel na mão. Olhou para o interior da mala ficando com a face ruborizada, ao reparar que tinha-se esquecido do aparelho. O senhor aproximou-se entregando-lhe o que lhe pertencia, sorrindo.

O metro seguiu e a sua expressão era de pânico. Sentou-se, derrotado, ao seu lado, murmurando que tinha entrado somente para lhe devolver o telemóvel e que pretendia ir para outro lugar. A mulher já agoniada, só sabia pedir desculpa. O sorriso tomou conta dos seus lábios, de novo e até chegar à outra estação conversaram alegremente.

A partir desse dia, ela ganhara outra rotina. Saía mais tarde, para que pudesse encontrá-lo antes de seguir para sua casa e ali nasceu uma bonita amizade – a que era necessária para dois seres focados em rotina. O dia a dia de ambos foi tomando outro rumo e isso não era de todo mau, como antes podiam pensar. Era algo bom que, felizmente arrancava gargalhadas aos dois.

Sofia

18 anos e parece que já vivi mais do que isso. Afirmo que sou o que escrevo. Não há forma mais simples e mais elaborada de me descrever. Escrever para mim é viver. É libertar-me de tudo o que me incomoda, magoa e me impede de crescer. Apesar de micaelense, o meu coração sempre irá pedir pelo Porto, sempre será lá o meu ponto de reencontro, de recomeço. É lá onde tudo faz sentido. É lá onde espero viver. O resto? Basta lerem e descobrirão. 

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