Foto: Ahmed Ashhaadh / Unsplash
Comportamento

De dentro para fora

E quando a noite chegava, os seus monstros voltavam, ainda mais fortes e sugadores do que no dia anterior. A penumbra inundava o seu quarto negro. As suas tatuagens minimalistas eram libertadas, as roupas pretas e apertadas finalmente caíam no chão e coberta de vergonha assim ficava, tentando abraçar-se em vão. O espelho – o vilão de todas as autoestimas baixas –, olhava-a, recriminando-a. Os seus dedos trêmulos passavam gentilmente pelas suas pernas encolhidas. Recolhia o lençol para perto de si, querendo tapar-se daqueles olhos que a repugnavam a cada noite.

Num ato rápido, entreolhou os seus seios, tapando-os em seguida; a sua barriga ainda flácida, tentou tapá-la com agonia; o seu cabelo curto e acastanhado que a deixava maluca, ignorou; os olhos cor de mel eram os únicos que a faziam chorar com desespero, pois eram, por mais incrível que parecesse, a única coisa que gostava no seu corpo. Soluçou. Passou os dedos nas cicatrizes presentes nos seus braços e murmurou como tinha sido capaz de tais atos.

As lágrimas caíam, ritmicamente, em suas pernas gélidas e sem antes pensar, virou-se de costas para o seu reflexo. Respirou fundo. Porque não conseguia aceitar-se? O que havia de tão errado em ter uma barriga flácida? O que tinha de errado nos seus seios? Seria porque eram grandes e não “condiziam” com a sua estatura? E os 4 quilos ganhos numa semana? Seria daquela pizza que comera com a melhor amiga? Seria porque tinha-se descuidado?

O som, do impacto da sua mão, no seu rosto deixara o eco no ar – que, inevitavelmente, tornara-se pesado demais para suportar. Na sua cabeça tentava relembrar-se de como era olhar no espelho, sem recriminar-se. Sem julgamentos, sem lágrimas de tristeza, sem pensamentos auto-destruidores.

A destruição estava presente. Ela conseguia senti-la, por mais que não quisesse. O seu medo tinha som e era por isso que de noite, todos aqueles pensamentos voltavam. Porque era de noite que estava sozinha: somente ela e os seus pensamentos. Era um sufoco dormir. Respirar. Andar. Levantar. E ela seguia. Como sempre. Havia quem dependesse dela. Tinha o péssimo hábito de suportar os problemas dos outros às costas e ajudá-los quando a pessoa que mais necessitava de ajuda era ela. E assim seguia. Havia quem estivesse em pior situação – isso era o que murmurava, mas não acreditava.

Todos nós, um dia esperamos ser salvos por alguém, porém, nem por um segundo, nos passa pela cabeça que esse alguém pode estar mesmo na nossa frente, esse alguém pode ser o nosso próprio reflexo. Porquê buscar cura em outro alguém, quando ela vive dentro de nós? Ela apenas está há espera que a procurem, bem no fundo. Mas ela sempre esteve lá.

E foi assim que naquela noite, depois de anos a despir-se e a vestir-se para dormir, decidiu dormir nua. Nua de pensamentos errados sobre si e de julgamentos. A primeira fase da cura era mesmo querer mudar a opinião, sobre si mesma. E dormiu. Dormiu, acordando renovada no dia seguinte. Finalmente tinha encontrado a voz que lá no fundo dizia que a beleza sempre lá esteve, interiormente, pois devemos ser bonitos de dentro para fora.

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