Foto: O Segredo
Textos

Bati a porta.

Vi-te na rua e fingi que não te vi. Que não te senti. Não ia aguentar ouvir que contigo está tudo bem. E ter que responder que comigo também está tudo ótimo. Que a vida vai bem sem ti. Sou péssima nessa arte de mentir e sempre me soubeste de cor. O teu olhar ia dizer que fui embora naquela noite de tempestade e não minto. Eu fui.

Mas não fui eu quem foi embora primeiro. Eu fui confundir lágrimas com gotas de chuva. Tu partiste tantas vezes e regressaste ao final do mesmo dia. Deixaste de me sorrir, de me preencher, de me saber de cor. Arte essa em que tu eras o único artista. Por isso não fui eu que abandonei o barco primeiro, eu só te amei e deixei-te ir ser feliz noutro lugar, noutra casa. O tempo passou por nós e eu nem dei por ele passar, envelhecemos e acabei por confundir sorriso com rugas.

Na noite em que te deixei, foi o dia da nossa vida em que mais te amei, o dia em que mais te olhei nos olhos e que saí para chorar, para afogar-me num copo vazio. Bebi a última gota e fiquei bêbada de ti. Ressaquei durante semanas e embebei-me de novo de memórias de ti. O amor engana e eu parti porque te amo.

E eu hoje fingi que não te vi. Ela é bonita. E o teu sorriso também quando olhas para ela. Quero ficar apenas com esta imagem na minha cabeça, de ti feliz.

Bati a porta e fui amar-me para longe de ti.

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