Foto: Yuris Alhumaydy / Unsplash
Textos

Queria que fosses tu.

A noite caiu e tu não voltaste até então. Se tinham passado semanas, desde a nossa última e definitiva discussão. Se tinham passado semanas de termos gritado coisas horrendas um ao outro. Desde então, a casa se esconde por entre a escuridão da noite, quando chego não há um aroma no ar (e eu tenho saudades de entrar em casa e poder ter uma mistura de iguarias a entrar-me pelas narinas), que não tenho alguém a cuidar de mim, que não tenho quem me massaje os pés, que durmo sozinha e amanheço sozinha.

A campainha soou, acordando a tua gata que adormecera aos meus pés. Corri até à porta esperando encontrar a tua fase rosada, a tua barba ruiva, os teus olhos cor de mel e o sorriso característico, que só tu tinhas e me fascinava por completo. Contrariamente ao que pensara, apareceu-me a tua mãe, com ar intrigante e um tanto sombrio. Quem me dera que ela nunca me tivesse batido à porta, mas não podemos fugir a sete pés e ignorar o que, inevitavelmente, acontece, diariamente. E num desses acasos, onde tudo anda ao contrário, foste apanhado e a vida que até então conhecias foi-te retirada.

Queria que fosses tu. Na porta, de braços abertos, dizendo-me que estava tudo bem, que me amavas e que como sempre eu tinha exagerado. Mas não queria que fosses tu, o cadáver presente na morgue. Não queria que fosses tu a ir embora, definitivamente.

Não me ensinaste a viver sem ti. A verdade é que até respirar dói, sem ti por perto. Não sei como encarar esta tua repentina partida. Não sei como encarar cada dia sendo que já não tenho como te ver. És agora apenas uma memória que quero para sempre recordar. Daquelas memórias que irei sempre querer ter por perto.

Ninguém nos ensina a lidar com o ter de deixar de amar alguém que já não está presente. Custa pensar no que farei, sem seguida, pois tudo estava definido e contigo incluído. Queria que estivesses aqui e que isto não passasse de um pesadelo horrendo. Queria que me batesses à porta dizendo ser uma brincadeira. Infelizmente, a morte continua a ser um dos fatores mais horríveis para despedidas eternas.

2 comentários em “Queria que fosses tu.”

  1. Carolina, és uma grande escritora. Transportas sentimentos em cada palavra. Devias seguir teus sonhos, sei que muitas pessoas irão ler o teu livro, se o escreveres e sei que irás, porque tens um grande talento.
    Beijos P. S.

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