Foto: Bianca Castillo / Unsplash
Reflexão

Quem me dera poder lixar-me para mim.

Enquanto a hora não chega, fico na praia até ao entardecer. Caminho pela areia, atrapalhando-me por vezes, quando o mar salga-me, gentilmente, os pés. Ouço devagarinho tudo o que a maré tem a dizer-me, ainda que nem sempre esteja pronta para ouvir. A verdade magoa, rasga, muda-nos por completo. Não consigo viver de bem com a verdade, mas aceito-a. Não há outra opção senão esta. Há que tentar seguir em frente, fingir estar tudo bem, acreditar que um dia tudo passa.

O mar sempre acalma, após muita agitação. Pode demorar o tempo que for preciso, que sempre termina. Não volta tudo a ser como antes. Seria sonhar acordado, caso isso acontecesse.

Temo pensar no que farei a seguir. Os dias têm passado por mim, as horas voam-me pelos dedos e a tristeza permanece cravada na minha pele, envelhecendo-me a passos largos. Quero acreditar que é cansaço. Apenas isso. Cansaço. Não é. Por mais que teime, minta aos demais e a mim própria. Não é. Entristece-me esta angústia constante, esta busca interminável por algo que nem sei o que é, esta represália que tenho, assim que alcanço o espelho.

Quero gritar. Grito, interiormente. Acredito que dito no ar, não teria tanto impacto como tem cá dentro. Estremece tudo. Peças caem. Umas partem, outras se fortalecem. Não são assim as pessoas? Caem e aprendem? Caem e mudam? Pois bem, tudo cá dentro é reflexo do mundo exterior. Este não saber descodificar deixa-me em ruínas, quando só peço para esquecer.

Tudo volta ao anoitecer. Os pés encharcados de areia levam-me até saída da praia. Finjo um sorriso. Engano o estômago. Lavo-me de vergonha, visto-me de falsa felicidade. Deito-me para permanecer acordada. Acordo sem nem ter adormecido. A vida é demasiado bela para não ser vivida. Talvez até seja verdade. Todavia, nem por isso o sofrimento para de rasgar tudo o que alcança no seu caminho.

Já aceitei o destino. Fui feita para cair e levantar. Sozinha. Para fingir sorrisos e ter sempre boa fé para com os outros. Digo e grito para mim, porque só dói em mim, só dói cá dentro. Cá fora tudo segue. Apressados. Demasiado apressados para perceber que um abraço me faz falta. Já esquecia… não está cá ninguém.

Todos chegam e partem. Sempre de forma inesperada. Ainda não me acostumei a esta falta de compaixão e de noção. A preocupação já não mora nas pessoas e sinto-me a endoidecer por tê-la toda em mim. Provavelmente, a culpa é minha. Penso demasiado, preocupo-me quando deveria ignorar. Entristece-me saber que a maioria olha para baixo. O único campo de visão é esse e se torna automático, de dia para dia. São as pessoas que temos, onde é mais fácil olhar para baixo e não em frente (nem para o lado). Os outros que se lixem.

Quem me dera poder lixar-me para mim.

2 comentários em “Quem me dera poder lixar-me para mim.”

  1. Quem me dera mandar lixar a esperança nos outros. Ignoram-me, falam mal de mim, abandonam-me. Só voltam para mim num voltar ao que é meu e que não têm, quando tenho algo que o meu pobre coração não vai hesitar em dar. Mesmo quebrado, mesmo sentido, mesmo camuflado numa alegria que não é minha.

    Quem me dera mandar lixar a minha crença em acreditar nos outros…

    Como sempre, este blog inspira, num voto caloroso e de amizade, a compartilhar o que vai cá dentro

    1. Às vezes, pensamos que todos são como nós. Com o mesmo coração e etc. Não se é assim. Tens de tentar ser mais dura. Não deixes que se aproveitem da tua boa vontade e do teu generoso coração. Afinal, sempre te irão procurar por esses motivos, porque sabem à partida que irás dar-lhes o que pedirem e precisarem. Surpreende-os com um não e verás que o primeiro é difícil, mas os restantes tornar-se-ão mais fáceis. Há que saber dizer não, senão comem-nos vivas e passam-nos por cima vezes sem conta.

      Awwn fico muito feliz por ler isso. Muito obrigada pelo carinho Cassy! 😚

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