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Há réstias de uma miúda feliz, nesse teu olhar triste.

Há réstias de uma miúda feliz, nesse teu olhar triste. Trouxe-te hoje ao mar. Sentamos-nos e não proferiste palavra alguma. Descalças-te as Vans e deixaste a areia apoderar-se dos teus pés. Agarrei nas sapatilhas vendo as enormes manchas vermelhas. Continua a fazer-te ferida. Se assim o é, porque as usas? Após um longo suspiro olhaste-me. Habituei-me a andar com elas, ainda que doa, ainda que sangre. A dor é suportável. Qualquer ser humano se acostuma a senti-la.

O teu olhar pousou sobre o mar e as sapatilhas sobre a areia húmida. Não tardava até o sol desaparecer no horizonte.

Em todas as tuas palavras vejo que aprendeste a aceitar as feridas que te couberam, a lidar com as cicatrizes presentes no teu corpo esbelto e a viver de acordo com o que a vida te trouxe. Recuso-me a acreditar que viverás assim para sempre. A eternidade é questionável, calculável. É uma tolice absurda. Contudo, importo-me por saber que não estás completamente feliz, como mereces. Quero que tenhas o sorriso dessa miúda que escondes. Há algo nesse passado que tu não contas. Não insisto, nem encubro a minha curiosidade.

Gostava que partilhasses comigo. Que pudesses deixar esses fantasmas de lado quando estás na minha presença. É pedir demais? É uma patetice minha, quem sabe? Não me parece descabido acreditar que um dia, aquele sorriso podem irá voltar, mais forte do que nunca. É pena não acreditares nisso, tanto quanto eu.

Sei que mostrar quem verdadeiramente foste um dia, se tornará numa enorme fragilidade tua, mas nem por um acaso, te faria mal por saber pelo que passaste. Sei que não te posso prometer isso e ainda que o fizesse, não acreditarias. A confiança que depositas nas pessoas é nula. Não dizes nada que te comprometa. Não confias os teus segredos a ninguém. E eu entendo.

Aceitaste as feridas que a jornada te trouxe e preferiste ficar assim. Elas mudaram-te sim. Para mais forte. Já tens mais experiência, porém não deverias ter-lhes dado poder para anular o que mais tinhas de bonito. As pancadas ensinam, fortalecem, mudam, porém a anulação só é feita se a permitirmos. Quem me dera que não te tivesses acostumado a isso. A viver e a caminhar como se nem estivesse doendo, sangrando sem parar. Gostava de poder parar tudo isso, com um abraço e fazer-te na miúda feliz que vejo, quando te olho. Só que não me é permitido tal coisa. Acho que terei de acostumar-me a viver, sangrando por dentro.

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