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Cicatriz do tempo.

O tempo? O tempo cura tudo e quem não sabe isso, nunca se magoou.
Lá ia eu de rodas nos pés em linha. Na minha cabeça era o mais próximo de voar e planar no céu, mas bem mais rente ao chão. Caía e levantava-me no mesmo segundo, sacudia as mãos e olhava em redor para ver se alguém me tinha visto cair. Não tinha medo que vissem a minha falha, mas que me tirassem o meio da minha falha.

Todas as vezes que caía, aprendia com os detalhes. Tinha cuidado com a confiança em mim mas sem nunca perder a coragem de prosseguir. Olhava o percalço e aprendia que as pedras travam as rodas e caímos de cara. E que não podemos avançar demasiado rápido porque temos o travão que nos faz cair para trás. Fazia mais 2 ou 3 vezes. Mais 2 ou 3 arranhões e aprendia.

O joelho esfolado não é sinónimo de falha, mas de vivência, de alguma coisa de acréscimo. Por vezes o mau é o que nos ensina, não da melhor maneira mas a mais rápida e eficaz. É preciso cair para levantar. Perder para depois se ganhar. O joelho lá passava, o sangue secava, a pele voltava e só ficava um risquinho branco para me fazer lembrar.

As cicatrizes. Espalhadas pelo meu corpo que contam a minha história. Das maiores às mais pequenas. As visíveis e aquelas que eu vejo com a memória. As entrelinhas de um corpo só nós sabemos. Em cada cicatriz uma luta, uma reconstrução e aprendizagem de nós mesmos. Já não sangra, já não dói, por vezes até nos varre da memória mas está lá. Eu sei que não posso mais subir aquele muro, correr no piso molhado junto à piscina, nem acelerar nas curvas com a bicicleta. E é nas cicatrizes que guardo os segredos de erros que já não se veem mas sentem, que sei de cor. Erros que não posso mais esquecer para não cair em erros recorrentes do passado.

O tempo cura tudo. Mas as cicatrizes são o tempo, que passa mas não deixa esquecer, mesmo sem doer mais…

1 comentários em “Cicatriz do tempo.”

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