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Textos

Pessoas frias.

Estas tão fria. – Senti que esta doeu, foi com tanta tristeza e desprezo que senti-me a derreter um pouco, só para contrariar o que me tinha acabado de dizer.

Não me conheces assim há tanto tempo mas sabes que sou assim, sempre fui. – Olho para o mar e começo a voar. – Só queria sair deste sufoco de ser qualquer coisa. Eu não quero ser qualquer coisa, eu só quero ser, ser basta-me. O qualquer coisa é muito pequeno para mim. Quero carregar em mim todos os sonhos do mundo, transbordar, ter tudo em excesso. Amar de mais, rir de mais, abraçar e beijar de mais. Quero viver mais e mais. O qualquer coisa é limitado mesmo que seja uma coisa qualquer. Ser é ser tudo o que é para ser sem ser nada em concreto. Eu não quero ser concreta, não quero ter um rótulo, um título. Vou escrever a história da minha vida sem título.

Não podem dizer que sou fria porque já amei de mais. Nem que sou apaixonada porque sou fria hoje em dia. Não podem dizer que sou sorridente porque só eu sei as lágrimas que chorei, mas também não chorei a vida inteira e ri muito. Sou a rapariga da escrita, mas também já toquei guitarra e flauta, canto no duche e karaoke na wii. Não podem dizer que sou a rapariga de romances porque gosto de um bom drama, um bom filme de carros ou de desenhos animados. Eu nunca fui preto, mas branco, a junção de todas as cores que as pessoas veem como uma só, mas elas não sabem nada. Sabem o que querem ver ou saber e morrem sem saber coisa nenhuma, nem sobre si nem sobre ninguém.

Eu quero ser quem fica e quem vai, quem volta, quem se está a marimbar para o lugar e carregar as flores das pessoas no cabelo, na mão. Quero ser ladra, roubar as melhores coisas do mundo, flores, beijos, abraços, amor e carinho, só por isso vale a pena ser preso. Só por ser vale a pena.

Eu não quero ser escritora, quero ser. Ser eu em todas as personagens que eu inventar, apaixonar, matar e fazer nascer de novo. É ser, ser aquilo que eu quiser, quando eu quiser e ser como o Martim Manhã, todos os dias ser uma coisa qualquer diferente para nunca cair na tentação de me acomodar a ser uma coisa qualquer.

Acabei de beber o último gole da minha cerveja e respondi em voz alta ao que me tinha dito.
Não estou fria, apenas com frio.

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