Foto: Bianca Castillo / Unsplash
Reflexão

Não sou aquilo que algum dia achei que seria.

Não sou aquilo que algum dia achei que seria. Quando somos mais novos imaginamos a vida como um mundo cor de rosa, onde tudo fica melhor e só há felicidade em cada esquina. Não é de todo desta forma. À medida que vamos perdendo essa ingenuidade, vamos errando, sofrendo, enfrentando perdas e obstáculos, vamos encarando o que nos rodeia de outra forma. Talvez essa forma não é a mais acertada, mas com tempo vamos aprimorando a visão sobre nós, sobre os outros e sobre tudo em geral.

A verdade é que ninguém vai dizer a uma criança/adolescente que a vida é mas difícil do que parece, até porque essas mesmas crianças/adolescentes não irão entender e vão achar que é mentira. Pior é quando descobrem que não é mentira. Antes fosse, muitas vezes.

Muitas vezes iremos ficar sem chão. Os problemas vão acumular-se como os papéis em cima da secretária à espera de revisões e correções. E as soluções parecem não aparecer. E na mesma, os problemas vão continuar. Chega o nosso primeiro amor. O primeiro amor tem um sabor agridoce. Vai ser muito bom no início. As sensações novas a invadir-nos o corpo e o coração. E depois sentimos pela primeira vez, o quão amargo pode ser entregar o coração à pessoa errada. E é aí que nasce a primeira cicatriz, a primeira dor insuportável – a que pensamos que é a mais insuportável de todas, mas não é (há piores).

Depois seguem-se mais obstáculos, problemas com o corpo, com a auto-estima, a falta de alguém, a destruição às vezes se instala e começamos a achar que fomos mortalmente enganados.

Afinal, isto de crescer não tem piada nenhuma, nem é bom. Nada vai melhorar se crescermos. Vai manter-se.

Os problemas de trás irão acompanhar-nos na vida adulta. Não é porque atingimos a maioridade que o nosso “cadastro” fica novo em folha. Ele mantém-se. Intacto. E é aí que começamos a refletir sobre o quão iludidos fomos. Ainda que possamos sentir que fomos muito ingénuos, a vontade de ser ingénuo vai aparecer, ocasionalmente, nas nossas vidas. Vamos querer fechar os olhos, tapar os ouvidos, passar uma borracha na memória e fingir que nada aconteceu, que não conhecemos aquela pessoa que nos magoou, que não temos aquele problema em mãos. Nada vai apagar isso. Não é por sermos ingénuos ou não que isso vai mudar, ou que vai servir para alguma coisa boa.

A adolescência e a fase adulta têm o mesmo sabor.

Têm o mesmo sabor do nosso primeiro amor. Agridoce. São fases de grande aprendizagem. Constante. Vamos cair, levantar, cair, levantar, aprender, errar, aprender, refletir, mudar, voltar a errar, magoar, perdoar, aceitar, voltar a cair, levantar, refletir, transformar, aceitar. Sempre. Em repetição.

A bagagem que iremos tirar de tudo isto? Imensa. Infinita para podermos saber de cor. Tudo acontece por um motivo. E é por isso que hoje não sou de todo o que pensei que seria. Fiz escolhas, optei por caminhos menos bons, recompus-me imensas vezes, cometi imensos erros e quis até desistir de viver. Se cá estou é porque consegui no final de tudo, manter-me cá.

Não sou o que um dia pensei ser, porém, posso finalmente afirmar, que sou melhor do que esperava ser há 10 anos atrás. Sou mais forte, mais confiante, sei pensar antes de fazer qualquer coisa, sei ajudar, amar, sei coisas que nunca pensei que iria saber.

Em geral, vamos mudar até ao fim dos nossos dias. E vamos aprender, diariamente, algo novo. Não importa a idade ou fase. Não há um tempo certo para as coisas acontecerem. Elas simplesmente acontecem. No fim, só consigo agradecer por cada problema, dor e obstáculo. Tudo valeu a pena, pois hoje, sou quem sou por isso mesmo.

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