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Reflexão

Uma geração que vive online

A dor me sufoca e eu perco o controlo. O caos se instala e eu peço socorro. Ninguém para ao ouvir os meus gritos. Estão todos demasiado ocupados de auriculares nas orelhas e de mentes perturbadas.

Entro num beco e deixo-me ficar. Um dia eu soube sair deste lugar, pelo meu próprio pé, como se nada tivesse acontecido, como se nem estivesse doendo e eu não estivesse cansada de tanto chorar. Achego-me, cansada de lutar contra este ataque de pânico que me quer controlar. Deixo que me possua por fim, sem mais lutas.

A chuva cai e não molha a minha alma que está tão morta. Deixo a água fundir-se nas minhas lágrimas ingratas que percorrem o meu rosto, achando que têm direito de me percorrer dessa forma e demonstrar o que as palavras não explicam.

No chão fiquei, amargurada, quase sem vida, soluçando, mas em silêncio. O trânsito continua, as pessoas correm desenfreadas pela rua e eu acabei de sobreviver a mais um dia caótico de escritório e a este maldito ataque.

A ansiedade me consome, mas não comanda a minha vida. Há quem deixe a sua ser comandada por tecnologias irritantes que ora vibram, ora tocam, ora mudam, ora viciam. Quantas facetas pode ter, alguém que nem amor próprio tem, que nem se apercebe do quão infeliz é, mostrando ser perfeito num mundo imperfeito?

Uma nova foto, uma nova amizade, um novo status que dura pouco tempo, uma mão que não se estende, um corpo que vive em funcionamento do telemóvel e anda cabisbaixo. Já ninguém é humano, estamos todos robotizados.

Quão triste pode ser esta geração que vive online a maior parte do tempo, com uma mente cansada, com uma ansiedade como amiga, numa solidão eterna. Não há maneira de melhorar, porém a solução é dada e faz-nos dizer que não. Não, não consigo. Não, é impossível. É impossível desconectar. Estamos tão conectados no virtual e tão desconectados da vida. A mesma passa e ninguém nota.

Uma cirurgia tudo cura. Um filtro no snap e estou perfeita. Há quem viva assim. Há uma vasta geração vivendo miseravelmente desse jeito. E há outra parte que está consumida pela escuridão, ansiedade e depressão. A cada minuto vários tomam o seu próprio veneno por falta de afeto ou de atenção. Uns se atiram em precipícios, outros tomam doses fortes demais. Todos se matam à sua maneira. Todos choram e tiram uma foto, que dor passageira. Uma menção no Facebook basta para dizer “adeus”, quando nem se disse “olá” quando a pessoa ainda andava pelo mundo dos robôs, que somos todos nós.

É ao segundo grupo desta geração a que pertenço e que, acreditem, nem é tão mau quanto parece. A ajuda não aparece, não há preocupação, há só conexão à Internet.

Era tão bom quando vivíamos de mãos dadas a alguém e apreciávamos um bom café com dois dedos de conversa ou uma tarde inteira no jardim, atirando moedas a uma fonte e pedindo desejos. Acontece que o mundo foi-se tornando pesado demais, as pessoas distantes demais e cada vez mais, os problemas vão surgindo e deixamos de lutar. Afinal, ficar para quê? Lutar porquê?

Hoje passa, amanhã volta. Esta dor me revolta. Saio do beco, olhando em redor. Não há quem não esteja olhando para baixo. Há luzes refletidas em lentes e olhos e carros que buzinam demais para se saber quantos são.

Todos seguem o mesmo percurso, uns perto demais dos outros, quase conhecidos mas não se falam, não dão a mão. O mesmo casal passa na marginal, todos os dias, à mesma hora e não andam de mãos dadas há anos. Um leva o saco das compras numa mão e o iPhone na outra. O outro limitasse a escrever rápido. Será que falam por mensagens estando tão perto um do outro? Onde está o afeto? Se é assim que terei de viver, então prefiro não ficar cá para ver.

Uma geração que podia aproveitar e triunfar com tanta facilidade, que apenas se envaidece de tanta futilidade. Não há amor, carinho ou preocupação. Isso são coisas do passado. Sejam bem vindos ao século dos viciados, quem não é, apenas vive errado.

Quis estar errada por todo este tempo e de nada me serviu. O caminho é sombrio, a solidão é real e fria, mas só eu pareço sentir. Desconecto, então, por fim.

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