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Reflexão

A corrida que é a vida

Acordo e nem parece que dormi. Visto-me sem forças umas peças de roupa quente, bebo um iogurte e saio a correr. Não há tempo para mais. As olheiras pesam-me no rosto e ficam mais escuras a cada noite mal dormida. O meu corpo debilitado cambaleia devagar, sem saber para onde se virar ou onde lhe vá doer menos os pés, ao se pousar.

Apanho mais um comboio e fico de pé. Há demasiadas pessoas num só sítio e o ar tornasse escasso para todos nós. Há quem tresande a tabaco logo pela manhã e lá tenho de me aguentar. Já só falta apanhar o autocarro e chego finalmente ao trabalho. Se tivesse carro não teria de me levantar às 6:00 para só entrar às 9:00. Não há dinheiro de sobra e há contas para pagar. Mantenho-me focada na respiração descompassada, para não inalar muito daquele cheiro intragável.

O comboio vai parando e as pessoas vão saindo gradualmente. Alguns rostos já-me são familiarizados. Parece que andamos todos na mesma batalha de ir trabalhar cansados de não descansar, de não estarmos felizes. A vida vai seguindo e eu esqueço-me facilmente do que não fiz, quando tenho tanto trabalho empilhado e com datas de entrega.

Há dias que já não me sento no sofá, muito menos como uma refeição completa. Há alguns dias que vivo para o trabalho e não saio com os amigos. Espera… não são alguns dias. São anos nesta batalha desenfreada por dinheiro, na mesma rotina stressante, entre um comboio e um autocarro, e uma corrida furiosa pela estrada acima.

Chego faltando uns minutos e sento-me por horas. A pulseira vibra insistentemente relembrando-me de que estou há muito tempo sentada, mas ignoro. E ignoro até ao final do dia, quando me levanto, por fim, e corro para o autocarro. Às vezes, saio tarde e perco o último. Há todo um xingamento que faço mentalmente a estas pernas que pouco andam e ponho-me a caminho da estação. Mais uns quantos metros e chego lá. Chego e espero. Já não apanho o que costumo apanhar.

Rodo a chave na porta de casa e caminho diretamente para o escritório. Há trabalho para entregar no dia seguinte e já era tarde para o fazer na empresa. Sou sempre a última a sair, quase sendo puxada pelo segurança, que insiste de 5 em 5 minutos, que precisa de fechar tudo e que já é tarde para continuar por lá.

Termino e falta pouco para as 3 da manhã. Tomo um chá após o banho e tento adormecer. O despertador toca e parece que nem descansei. E retomo tudo outra vez. Já não se é viver. Estou a existir e a contar para a população nacional e mundial. O que raio faço de benéfico para mim mesma? Nada.

Talvez a maioria de nós se sente perdido na corrida que é a vida e a busca pelos nossos sonhos vai ficando cada vez mais distante porque assim a queremos. Se eu fosse capaz de desistir de correr pelo que me paga só as contas, estaria mais feliz trabalhando pelo que me daria segurança e paz. Mas nem todos são capazes e a nossa geração está lixada. Andamos mentalmente esgotados desde cedo e existimos para pagar contas.

Não há tempo para constipações, nem dores de garganta. Dois comprimidos e um chá e fica resolvido. Já esqueci o que queria mesmo. Já-me esqueci. Já esqueço, todos os dias, o que é não viver assim.

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