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Textos

Desta vez, não fico mais.

Fiquei quando todos partiram. Permaneci ainda que tudo me puxasse para ir embora e virar as costas aos problemas dos outros. Fiquei com peso demasiado insuportável para carregar, mas ainda assim continuei. Eu fiquei, independentemente de tudo, com as pessoas. E elas? Elas me deixaram quando adoeci.

Nós sabemos sempre quando será o fim. Conseguimos senti-lo, meses antes de ele finalmente acontecer. Ficamos adiando as despedidas, como se elas nem fossem precisas. Precisava bem mais do que um pedido de desculpa. Precisava de um abraço e de um “estarei sempre aqui para ti, independentemente de tudo, tal como sempre estiveste”. Eu precisava disso! Quando mais precisei todos me viraram costas e seguiram com as suas vidas melhoradas.

Parece que quando encontramos a cura esquecemos quem esteve lá, nos dando a mão, em cada vez que estremeceu tudo, ruiu tudo e doeu cada pedaço de pele. Esquecemos facilmente um abraço, uma frase de motivação, alguém que ficou.

Não posso sentir-me triste pelas escolhas dos outros. Todavia, esperava bem mais de quem sempre me teve, a qualquer hora, a qualquer problema.

A ansiedade me consome o corpo, a mente e a alma. Estou a afogar-me no enorme mar que é a depressão, sem colete salva-vidas, sem nem saber nadar. Não grito, não combato com as ondas para poder ficar mais um pouco. Deixo-me ser arrastada para o fundo do oceano, esperando que assim doa menos. Ninguém sentirá falta, ninguém irá lembrar-se sequer de quando de madrugada saí da minha casa, para ir resolver os problemas dos outros.

É tudo sobre servir. Servimos os outros enquanto eles querem e depois somos lixo. Somos deitados fora, como um desprezível pedaço de plástico.

Estou afundando. Podia estar lutando. Podia estar gritando, esperneando, tentando salvar-me. Mas há muito desisti, há muito deixei de importar-me. Talvez a dor sempre me pertenceu, talvez ninguém se apercebeu do quão sombria ficava, a cada semana. A gente não se apercebe quando não se importa o suficiente. E tudo bem, eu não era ninguém. Não sou ninguém.

A ansiedade e a depressão conseguiram-me tirar todas as forças para lutar por mim mesma, mas nunca pelos outros. De que me valeu ser boa amiga? De que me valeu carregar as dores dos outros nos ombros? Agora estou afogando-me no meu próprio sangue, sem nem resistir, ou até lembrar do quanto isto podia ser diferente.

Desta vez, não fico mais.

19.07.03

2 comentários em “Desta vez, não fico mais.”

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