Foto: Carolina Pimentel
Na estante

As Flores Perdidas de Alice Hart

As Flores Perdidas de Alice Hart foi uma descoberta infinita do princípio ao fim. O suspense mantinha-me viciada na leitura, fazendo-me ler 100 páginas em poucas horas. Decidi comprá-lo, aquando da leitura da review da Joana Rito. E, confesso que não me arrependi, em momento algum.

Não gosto de flores. Acho-as bonitas. Tenho pena de as cortarem e ofereceram-nas como belos e caríssimos ramos (acho uma estupidez, sinceramente). Apesar de não gostar de as receber, sobretudo, costumava admirá-las na quinta do meu avó, quando as regava. O perfume que libertavam e como podiam simplesmente estar bonitas e vivas num dia e mortas e murchas no outro. Uma perfeita inconstância. Holly Ringland fez-me olhar as flores com outra perspectiva. Mais bonita, mais real.

Devemos dar flores a quem gostamos, para nos desculparmos, demonstrarmos o nosso encorajamento a alguém, demonstrarmos o que sentimos, o que nos atormenta e tudo isso, só o conseguimos fazer com a linguagem das flores. Do mais mágico que há, digo-vos desde já.

“A vida acontece para a frente, mas só pode ser entendida para trás. Não é possível apreciarmos a plenitude da paisagem onde estamos quando fazemos parte dela.”

A história começa na visão da pequena e inocente Alice,um local isolado, situado entre os campos de cana e o mar, onde a mãe, grávida, planta e cuida das suas flores e o pai isola-se na sua cabana. Com um temperamento bipolar, o pai, muitas vezes torna-se violento e termina por bater na mãe e na filha.

Até que um dia, a família se vê encurralada numa casa engolida pelas chamas. Apenas a pequena Alice e o seu irmão recém-nascido sobrevivem. Com este acontecimento, a avó June, mãe de Clem – pai de Alice -, vai buscá-la para que então, a criança viva com ela.

A vivência entre as duas foi difícil no início, e a história dos pais, Clem e Agnes e o porquê dos pais não lhe terem falado da avó, fica por contar. Até que, um dia, atingindo a maioridade, Alice descobre que fora a avó a denunciar o seu amado, com quem pretendia fugir à imigração. Com essa revelação, foge, deixando Thornfiel, as Flores e June.

“Deve ser horrível carregarmos o fardo de querermos muito contar uma coisa a alguém, algo que essa pessoa deve saber, mas pensarmos que, para isso, temos de mergulhar bem fundo dentro de nós, a um sítio onde não queremos ir, para encontrarmos essa história que sabemos não poder reescrever.”

Depois de sobreviver a uma tempestade, que ameaçava destruir o campo de flores, que deixara para trás, Alice permanece no deserto central da Austrália, onde começa a trabalhar como ranger, no Kililpitjara National Park. Ali conhece Dylan e apaixona-se perdidamente por ele, ignorando os avisos de sua amiga, Lulu.

Parecido com Clem, Dylan tem um temperamento difícil e torna-se a cada dia mais violento, deixando que Alice acredite que a culpa é exclusivamente sua, pelo seu comportamento.

Mais tarde, Candy e Twig, duas Flores, encontram-na e contam-lhe toda a história dos pais e das decisões tomadas pela sua avó. Assim, descobre quem criara o seu irmão e procura pelo mesmo, para o conhecer. A história que há muito buscava saber. A sua verdadeira história, porque todos nós temos uma, não é mesmo?

“Confia na tua história. Tudo o que podes fazer é contá-la exatamente como foi.”

É extraordinário apercebemos-nos que muitas vezes, nos sujeitamos às más experiências do passado. Alice via os maus tratos que o pai dava à mãe, sendo que ela própria também vivenciara, e ainda assim, foi desculpando o namorado por todos os comportamentos violentos. Achava verdadeiramente que a culpa era sua, que não estava a ver o lado dele, daí surgir a sua frustração e atitudes abusivas. O pior de tudo é saber que em algum lugar no mundo, ou até uma amiga próxima, pode estar a passar por isso, achando que ela está errada.

pessoas que sofrem caladas, escondem o que passam e não vemos isso. A violência doméstica, os abusos durante o namoro, ainda são bastante recorrentes e não podemos deixar, em momento algum, que isso aconteça connosco. Ou com quem conhecemos. Há coisas que não são normais, há coisas pelas quais não devemos discutir, porque cada pessoa é livre de fazer o que quiser. Tenham isso em atenção e mantenham-se atentos.

As Flores Perdidas de Alice Hart foi um livro emocionante que recomendo vivamente que o leiam. Deixem-vos absorver pela linguagem das flores e pelo que verdadeiramente importa (ou deveria importar).

“De que servia a premonição se insistíamos em permanecer cegos em relação a nós mesmos?”
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