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Reflexão

Não fomos amigos.

Ela carregava a carteira dos cigarros no bolso de trás, tirava um enquanto andávamos pela cidade iluminada pelas luzes artificiais e pela luz lunar. Dragava aquele cigarro como se fosse o último e lhe valesse pela vida toda. Sabia-lhe bem. Detestava esse seu vício, que se entranhava nas roupas e fazia com que andássemos com uma nuvem de fumo atrás, nos perseguindo insistentemente. E ela não largava.

Tempos mais tarde vi que mudou drasticamente. Aumentou a dose. Não fazia conta de quantos fumava numa hora e não havia momento algum em que não lhe visse com aquilo na mão. Admirava a forma como sorria de corpo inteiro, de como nos fazia rir. Isso jamais aconteceu. Levei tempo até questionar-lhe o que se passava, o que a tinha feito mudar. Arrependo-me de o ter feito tão tarde, quando já não havia nada a fazer.

Ela descobrira a doença e disseram que as mazelas eram grandes demais para se suportar. Ela preferiu continuar a fumar e aumentar a dose para que assim nos abandonasse o quanto antes. Ao mesmo tempo que tentava amenizar a sua dor, aumentava-a ainda mais. E tudo isso, sem nos dizer nada. Nós que a tínhamos de vista sempre, nunca demos por nada, nem mesmo quando ela não nos respondia tão prontamente, ou quando insistia que estava bem depois de quase desmaiar. Fomos achando que a teríamos para sempre e ela se foi.

Na maioria das vezes, não damos valor às pessoas que nos rodeiam. Deixamos as nossas angústias para depois para ouvirmos o outro. Porque o problema do outro é maior que o nosso e posso ajudá-lo, mas ninguém consegue sequer ouvir-me. Há amigos que são egoístas. Só pensam em si, só querem que os ouçam e não querem ouvir.

Nós tínhamos-lhe por garantida, estava sempre lá para ouvir-nos, dar-nos conselhos e por alguma razão achou que nem deveria contar-nos que estava doente. Certamente porque iríamos continuar a achar que os nossos assuntos eram mais importantes do que um diagnóstico grave que ela tinha tido.

O tabaco matou-a, mas nós ajudamos a que ela morresse. Nós não fomos amigos. Não nos preocupávamos, não insistíamos em ouvi-la, não discutíamos sobre o quanto ela estava a fumar demais. Estava tudo na nossa frente e não vimos porque não quisemos ver. Preferimos ficar calados a ter de lutar por si. Foi isso que a matou, antes da doença sequer aparecer.

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