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Reflexão

O que raio estou fazendo da minha vida?

Abro uma garrafa de vodka e deixo que o líquido queime a minha garganta. Abro mais uma. Drago um pouco de um charro. Abro mais uma carteira de cigarros e fumo um, em dois tempos, sem prestar atenção a como os meus dedos estão queimados e pretos.

A saia balança um pouco como o movimento do vento e deixo-me ficar. Mais um cigarro. Umas raparigas saem agarradas a um rapaz. Nem pestanejo. Já estive em situações idênticas há poucas horas. Deixo de os ver e volto para dentro. Todos dançam, embriagados, jurando amor a quem acabaram de conhecer. Já pouco nos importa, já pouco se importam em geral. Sento-me e deixo-me estar um pouco.

Mais uma garrafa, mais uma passa noutro charro, de outra pessoa, que até mim passou por quase uma dezena de pessoas. Não me importo. Passo a outra miúda que está quase inconsciente. O rapaz vai dando em cima dela, ela vai-se deixando levar. Todas acabamos por nos deixar levar com tanta porcaria que bebemos e fumamos. Acaba sempre da mesma maneira: numa cama de um motel qualquer, já pela tarde, onde não nos lembramos de onde estivemos, com quem estivemos e sobretudo nem sabemos reconhecer o rapaz com quem supostamente dormimos.

Continuamos no mesmo lugar inundado de fumo e de cheiro a charros. Bebo mais. Deixo que o whisky me queime e me devore as entranhas. Um rapaz alto puxa-me para dançar e convida-me, sem mais demoras, para sair com ele e a sua amiga. Aceito. O cérebro está demasiado ocupado nessas horas com o exagero de álcool que consumimos e com a droga.

Entro num carro que nem sei se lhe pertence. Não sei o nome da miúda ao meu lado, nem o dele. Deixo-me estar. Agarro num cigarro e fumo-o devagar. A música vai tocando, as paisagens vão passando, e vou me apercebendo que o nascer do sol está prestes a começar. O que raio estou fazendo da minha vida? É o que me questiono, constantemente, quando estou num carro do qual desconheço o dono ou o destino para onde vamos. Questiono-me se voltarei a casa, pois há quem nunca chegue a voltar. E se não voltar?

Bebemos mais uns quantos copos, depois de entrarmos num quarto de motel. Despimos a nossa falta de inocência e deixamos que ele nos consuma o corpo, como se fôssemos de sua propriedade. Cansamos-nos, tomamos um banho. Vomito. Vomito sem parar e fumo um cigarro à janela, enquanto o rapaz se veste para ir embora. A miúda treme na cama depois do espetáculo. Não sabia ao que vinha. No princípio, nunca sabemos, mas depois aprendemos, nos mentalizamos e seguimos. Afinal, quem se meteu nesta vida fomos nós.

A nossa vida passa a ser esta. Festas, bebedeiras, ressacas, violações. Sofremos, mas tal como a ressaca, tudo passa. Temos ressacas porque continuamos a beber e continuamos nessa vida absurda e nojenta porque queremos. É simples e cru, mas nem sempre tão claro nas nossas mentes conturbadas.

Talvez um dia sejamos capazes de ver que merecemos melhor e possamos dar tudo de nós, nas cadeiras deixadas para trás na universidade. Afinal, o que fazemos por lá? Comparecemos nos testes sem estudar e não vamos às aulas porque temos ressacas para curar. É a vida que escolhemos. É a vida que temos. É isto que estou fazendo da minha vida. É esta a vida de tantas outras miúdas e sim, somos culpadas por isso.

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