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Reflexão

Amor no ar.

Passei a vida toda a pensar que era impossível viver sem amar. Sem estar apaixonado ou ainda mais simples, ter uma paixoneta. Pensava mesmo que era impossível nunca ter ninguém para procurar nas redes sociais, nos corredores da escola ou nas ruas da cidade. Parecia-me um cenário demasiado vazio para coincidir com o termo “viver”. Hoje percebo tudo.

No passado achava impossível porque não conhecia mais nada além do amor puro e verdadeiro. Apaixonava-me num abraço, num sorriso ou aperto de mão. Era tão simples, o amor andava no ar. Qualquer carinho era sinónimo de amor e eu apaixonava-me vezes e vezes sem conta ao dia. Apaixonava-me pelos meus amigos, pela minha família, por desconhecidos até quando me diziam simplesmente “bom dia” no autocarro. Era tão puro este sentimento que até o encontrava no peluche que dormia todos os dias comigo, na minha almofada, na minha mochila para a escola e ainda nos meus cereais matinais. Era amor, do verdadeiro sem qualquer lacuna.

Hoje as coisas mudaram, a visão das coisas ficou mais desbotada e turva. Saiu de casa de olhos cansados e se não escolhesse no dia anterior nem sabia bem o que estava a vestir. O autocarro vai cheio e ninguém se sorri, se olha ou se vê. Cada um abandona na sua paragem e a vida segue. Troco de mochila todos os dias e nenhuma delas tem valor. Os amigos são cada vez menos e acabam sempre por tropeçar nas pedras da vida. Deixam de fazer sentido as coisas, deixam de ser coloridas e puras. Já não há amor no ar, nem nos corredores ou nas ruas da cidade. O meu olhar alterou-se. Onde está o amor? O carinho? A amizade?

Percebi que o amor hoje em dia tem lacunas, feridas por sarar e dores que não posso mais suportar. As coisas perdem o sentido no sentido da vida. E nós andamos feitos baratas-tontas à procura de tudo, que acabamos por nunca encontrar nada.

Posso voltar a ser criança? Aquele tempo em que era verão o ano inteiro e que a única que coisa que pesava eram os brinquedos na mochila. Nesse tempo, havia amor no ar.

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