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Reflexão

Recomeçar.

Há várias semanas que já não caminhavam de mãos dadas, ao pôr do sol. Na verdade, nem se viam, nem achava que ele desejasse fazê-lo.

Naquela tarde, agradavelmente, aceitara o seu convite, para um passeio demorado. Tremendo e não sentindo os dedos gélidos, a cada quilómetro que percorriam de carro, ia engolindo em seco, olhando para ele e sem saber o que poderia acontecer naquele demorado passeio. Seria o começo do fim? Não havia começado o fim, há muito tempo antes? O que estiveram eles a deixar passar? A evitar?

Estacionou. Ficou terrivelmente nervosa. Sabia que alguma coisa se passava. O silêncio perturbante entre ambos dizia isso mesmo. Gritava aos céus, o quão mudados estavam enquanto casal. Quem os vira antes, não poderia dizer que eram o mesmo casal sorridente e apaixonado, de mãos dadas, ou abraçados, em todos os passeios.

Saíram do carro e inesperadamente, nas suas mãos geladas e trémulas, sentiu o calor queimá-la. Eram quentes e prudentes os seus dedos, em volta dos dela. Puxou-a num só movimento para perto de si e acionou o alarme do carro. Entraram no jardim, tendo somente ela olhado para ele, expectante e boquiaberta, tendo a mão cada vez mais quente, o corpo fervendo e a mente transbordando de questões ainda por responder. As chamas inundavam-se em seu redor e ela continuava angustiada. O que se passaria? O que estava a acontecer? Porque lhe tinha dado a mão, depois de tanto tempo?

Pararam apenas quando uma grelha de ferro os deteve. Viram o pôr do sol, quente, em tons de rosa, vermelho escuro, ardendo feito ela, azul e roxo. Silêncio. Não havia nenhuma sentença proferida. Baixou a cabeça e deixou de apreciar o final do dia. Havia demasiado medo, e o seu corpo tremia em função disso mesmo. As possíveis respostas que encontrava para as suas próprias perguntas, deixavam-na tristemente apavorada. Se era o fim, que fosse rápido. Que lhe murmurasse isso rapidamente e que a deixasse ir, correndo, para outro lugar, chorar sozinha.

Ao contrário do que pensara, as mãos não se desuniram. Puxou a que a aquecia e depositou um pequeno beijo nas costas da sua mão pálida. Entreolharam-se e o fogo do seu olhar queimava-a. Engoliu em seco e desejou que não a torturasse mais. Que acabasse com o que ia ali fazer, num rápido gesto, numa única palavra.

Peço desculpa. Por tudo. Foi a única coisa que ouviu e as lágrimas correram-lhe feito cascata pelo rosto. Tentou largar-se dos seus dedos que a apertavam, junto do seu peito. Queria ir embora. Tinha dito rápido o que queria dizer. Podia até tê-lo feito sem lhe ter dado a mão, sem lhe ter dado um beijo. Preferia que o tivesse feito sem tamanha artimanha. Assim, pensou, não podia doer tanto o fim.

Perdoa-me, por chorares. Apenas quero que voltemos a ser como antes. Fungou. Uma única vez e tentou acalmar-se, olhando-o nos olhos. Via neles o reflexo do seu rosto choroso, do pôr do sol que tinham vindo apreciar e engoliu as lágrimas que tinha por derramar. Não era o fim, que vinha dizer-lhe, era sim, o recomeço. Queria recomeçar, queria ser como antes. Queria que fossem como antes.

Num instante rápido, abraçou-a, sem demoras. Deixou que ela sentisse o seu calor, o seu perfume e se sentisse bem, nos seus braços. Não se lembrava de há quanto tempo tinha deixado de fazer aquele pequeno gesto. Arrependia-se profundamente por isso.

Olhou-o e levou as mãos ao seu rosto. Ele deixara escapar alguma água salgada, dos seus pequenos oceanos. Não havia mais nada a dizer, somente a fazer e ambos estavam dispostos. Ambos se amavam e isso bastaria para recomeçar o que um dia tinham parado de fazer. As mãos uniram-se uma vez mais e caminharam assim, por mais um bocado de tempo.

Quem nunca errou com quem amou/ama, não sabe o que é recomeçar onde parou. Por vezes, amar é isso mesmo. Recomeçar e perdoar, quando tem de ser. Em todos os relacionamentos há discussões e desentendimentos, mas só os fortes permanecem juntos e lutam, apesar de tudo.

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