Foto: Anne Nygård / Unsplash
Textos

A última carta.

Esta é a última carta que te escrevo. A última vez que irei escrever sobre ti. Mas sobretudo que irei escrever sobre mim, sobre o que sinto. É a última vez que irei desabafar.

Estou desistindo. Aliás, há muito desisti. Deixei-me ficar no fim do poço, esperando a água cair para poder afogar-me de uma vez.

Estou cansada de remar contra a maré. Cansada de tentar demonstrar que tenho sentimentos às pessoas e elas acharem sempre que sou de pedra, sem sentimentos ou empatia alguma.

Há muito tempo que apenas existo. Não vivo, não consigo simplesmente desligar esses maus pensamentos de mim. Ando a prejudicar todos em meu redor com esta má energia, que os contamina. Tenho de parar. E a única maneira de parar é deixar de falar com as pessoas sobre mim, sobre os meus pensamentos, sentimentos ou desabafar.

Desiludo-me constantemente com as minhas próprias expectativas. Espero tanto dos outros e nunca nada de mim. Esse foi o meu maior erro contigo, sabes? Esperar coisas de ti, coisas essas que nunca chegariam. Não tinhas qualquer tipo de obrigação em dar-mas.

Acho que sempre me movi em torno da carência e não do amor. E quando amei, dei tudo sem nada receber, nem mesmo um “sim”. Isso destroçou-me e ainda assim continuei buscando alguém para me completar. Acontece que ninguém deve completar-nos. Devemos estar completos antes de alguém chegar. Devemos estar felizes e não só buscando essa pessoa para podermos estar bem. Isso foi pura carência da minha parte e infelizmente, fiquei carente de ti. Queria-te a todo o segundo, a tua atenção a cada mensagem, mensagens todos os dias, que entendesses tudo o que sentia. Fiquei dependente das mensagens diárias e arrependi-me miseravelmente por isso. Isto nunca foi amor. Foi carência, foi vício. Foi uma forma de endoidecer ainda mais, querendo estar sempre cheia de ti e vazia de mim. É assim que me encontro: vazia e carente, com pensamentos cheios de ti. Só que isso não basta.

Eu só quero que isto pare. Por isso, paro primeiro. É o nosso adeus. Finalmente, o nosso adeus, o nosso desapego.

Tive tanto para te dar. Quis tanto mostrar-te e não pude. Tudo porque não podia continuar a iludir-me por mais tempo. Hoje, desiludo-me mais uma vez com as minhas expectativas, mas elas são apenas minhas, não tuas, não nossas. Portanto, tudo é só meu. Obrigada, por teres sido sempre teu. Sem carências, nem más energias. Agora estás livre das minhas, de mim.

Adeus.

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