Textos

Infância presente.

Quando somos pequenos todas as pessoas nos perguntam incansavelmente “O que queres ser quando fores grande?”. Respondi sempre de maneira diferente, queria ser tudo o que fosse possível e impossível também. Queria crescer, isso eu sabia, mas também sabia que queria ir brincar mais um pouco antes de ir dormir.

Nos meus sonhos cabiam todos os lugares do mundo, todas as personagens dos desenhos animados e profissões que possam imaginar. Era uma espécie de Martim manhã que mal sabia ler mas queria ser tal igual àquele super-herói. Queria ser o Peter Pan e não ter que crescer e no mesmo segundo queria ser a Ana Luísa dos Morangos com Açúcar e andar de mota. Andava com os sonhos no bolso e podia oferecer a quem não os tivesse. Eram de borla.

Hoje, hoje os sonhos custam dinheiro. Custam as propinas na faculdade, custam os olhos cansados, custam a infelicidade de andar à chuva. Hoje tenho menos paciência para crianças, penso que não seja rancor apenas inveja de querer sonhar só mais um pouco e ser menos adulta. Hoje estou com demasiado sono para sonhar longe. Planeio a minha vida e escreto post-it em todo o lado para não me esquecer de nada. Perco demasiado tempo no computador e nas redes sociais. Deixo os planos para o mês que vem e esqueço-me de viver o agora. Agora que sei que o tempo acaba, que a vida é efémera e que a saudade pesa, não ligo tanto ao momento, parece que a racionalidade me tirou a intensidade das coisas. Sei tanto que pouco sei do que realmente é preciso para viver. Quando somos crianças vivemos e depois damos por nós a sobreviver. Perco-me na seriedade da vida.

Mas hoje acalmei na areia fria, deixei os pés descalços e permiti-me. Deitei-me a olhar o pôr-do-sol e visitei a criança que vive dentro de mim e fui ser astronauta em noite de Lua Cheia.

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