Textos

Para sempre, criança.

Corri para o mar com uma vontade imensa de o abraçar, mergulhar em sua casa e ficar a olhar o céu, flutuando. Fez-me lembrar de ti e do nosso barco de papel que levamos mar a dentro. Fez-me lembrar a saudade do teu sorriso ao fundo da rua enquanto esperavas por mim. Mesmo que isto sejam tudo imagens da minha cabeça.

Sempre esperei que estivesses à porta da escola, em segredo para eu chorar de felicidade por te ver. Acreditava sempre que virias no fim de uma despedida, em toque de telemóvel, em toque de um abraço. Talvez viesses em sinal de colo ou de silêncio até. Mas tu nunca chegavas e eu nunca te ia buscar. Esperamos de mais das pessoas e por pessoas.

Chega a um dia, crescidos, que percebemos que a espera cansa, que as chamadas nunca chegam. Confundimos a saudade com ódio e parece que nos reprimimos a nós mesmos. Perdemos a vontade de ir, de procurar e isto vira uma bola de neve onde ninguém luta por ninguém. Deixamos a falta de tempo justificar tudo e o amanhã nunca chega para quem arranja desculpa. E a nossa desculpa é que hoje não dá.

Entre a inocência do que fomos, do que pedimos que nunca chegou perdemos a esperança no coração de adultos. Coração mais frio, mais imune à ilusão. Penso que a dor seja a mesma mas sabe a “mais uma”. Mas a criança dentro de nós nunca morre e as dores que carregávamos continuam na mochila que traz às costas no lugar dos livros infantis. Mas também é ela que carrega o que sobra da esperança que é imortal no coração de uma criança.

E essa criança pode nunca ter o que pediu, o colo, o abraço talvez. Mas não a abandones agora. Pega na sua mão e há muitos castelos de areia para construir, muito mar para descobrir. E entre os seus caracóis entrelaçados só tens que dizer que vai ficar tudo bem. Essa criança és tu, enquanto sonhas.

2 comentários em “Para sempre, criança.”

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