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Caderno de Desabafos

Ponto de ruptura

Mais uma crise. O ponto de ruptura está claro, mas ignoro. Finjo que não é nada, que já passa e que isto acontece somente às vezes. O que acontece é que esses “às vezes” têm acontecido com frequência.

Há um peso invisível que carrego, que faz-me arrastar com dificuldade, diariamente. Tento enganar o cansaço com piadas e gargalhadas. Tento aliviar a dor do meu peito, que se faz sentir a cada noite, a cada silêncio. Tento não sentir de novo este nada que tudo absorve e me deixa isenta de tudo.

As lágrimas já me correm pelo rosto. Há dias, que estou a engoli-las. Há dias, que não me permito deixá-las sair. Tento guardá-las por mais tempo, como se isso nem me prejudicasse.

Estou tão cansada mentalmente que nem me apercebo o quão mal possa estar. Na realidade vou relevando tudo. Não é nada, já passa, acontece esporadicamente, estou bem. Acontece que não estou bem! Sinto-me a cair, a afogar-me num enorme poço, onde não tenho forças suficientes para nadar, para chegar átona, onde não sei se de facto, quero lutar para sobreviver. Estou cansada e só me sinto a desfalecer.

Deixo-me ficar, chorando sem parar. Daqui a nada já não sinto mais nada. O pior é de facto, não sentir absolutamente nada. Não sinto raiva, não expludo, não murmuro o que sinto, não desabafo.

Não há ninguém que se importe. Não há quem me estenda a mão e me salve deste enorme oceano em que me deixo levar, sem lutar. Ninguém se preocupa verdadeiramente comigo para notar estranheza nas minhas frases, na minha voz, nos meus comportamentos. Ninguém me conhece verdadeiramente. Não sabem o que me vai na alma ou na mente e mentem dizendo importar-se, dizendo conhecer-me, quando jamais irão conseguir enganar-me.

Estou cansada de falsidade, de amigos que só o são porque precisam da minha ajuda, de amar alguém que não se importa e que não suporta os meus desabafos. Estou cansada, mas o cansaço não é visível para ninguém.

As lágrimas há muito cessaram. Por toda a madrugada foram capaz de inundar-me os olhos, o rosto e a almofada. A ruptura deixa-nos isentos até de água salgada. Sinto-me inundada de um mar salgado, onde as lágrimas se confundem com o meu corpo pálido, cansado de traumas, cicatrizes e de lutas. Não é morrer, mas é pior do que isso.

Não há forças para continuar, porém levantamos, vamos e fazemos. Não queremos levantar, mas levantamos. Continuamos com a mesma rotina, aceitando e fazendo tudo, como se nada estivesse acontecendo. Porque somos obrigados a fingir estar bem, não para não preocupar os outros, mas sim porque nem mesmo contando, iriam preocupar-se. Para quê? Realmente, para quê?

Isto já passa. Passou. Talvez daqui a uma ou duas semanas volte. Não dura muito tempo sem que volte ao mesmo ponto. A ruptura acontece sempre, porque ainda estou doente e a cada dia, mais. Será mesmo doença? Talvez seja. Estou doente, mas não sinto nada. É uma porcaria! É tudo uma grande porcaria!

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