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Reflexão

dias de carência acumulada.

Há dias e dias de carência acumulada. Vivemos em piloto automático, repetindo as mesmas tarefas como se o começo fosse o fim do dia. E o fim, o começo. Há a carência de um toque, de um abraço. Nós que tanto desvalorizámos a liberdade, um abraço, um beijo na testa, nos vemos encurralados nessas faltas constantes.

Todos tentámos acreditar que tudo isto é temporário, mas já perdura por um longo mês. Até quando? Até quando teremos de esperar para estar com as nossas pessoas? Até quando iremos resumir-nos a manter-nos em casa, com um medo assolador a consumir-nos por inteiro e uma saudade avassaladora devorando-nos o peito, mais e mais?

Digam-me, que já não posso mais, quando será este fim. Ou então será o fim de mim. Da minha sanidade mental. Há uma ânsia incontrolável em cada ser, por voltar a ser como antes, na mesma rotina de antes. Só que nada voltará a ser como era. Os cuidados terão de ser outros, o pânico irá duplicar e até os abraços e cumprimentos serão ponderados e receosos.

Já sabemos de cor os dias, já não existem planos de reserva, já esgotamos as séries em atraso, os filmes que adiamos ver, os livros que tínhamos por ler na estante. E a saudade continua, gritando por alguém que mora longe de nós. Grita porque não há quem a sacie como deseja. Bem que queríamos. Bem que queria.

Até ao fim, iremos resumir-nos a acordar, comer, dormir e nada mais. As tarefas básicas do nosso dia a dia, tornaram-se as únicas tarefas que temos a cumprir. A nossa agenda antes caótica, encontra-se rasurada ou em branco. O futuro é uma grande folha em branco e a tinta na nossa caneta parece secar a cada dia, por inutilização. Até quando teremos de cancelar, de adiar e de não escrever? Até quando não iremos ter um abraço, um toque, o reconforto de que precisamos?

A vida como a conhecíamos já não existirá. O depois é mais caótico e sombrio do que o agora. Pós-pandemia será um caos. Será que alguma vez iremos estar preparados para isso? Será que estamos preparados para mais um adiamento dos nossos tão sonhados reencontros?

Até lá, não sei em que dia estou ou em que hora é o pequeno almoço, só sei que me deixo levantar, da mesma forma que me deixo deitar. Um dia, tudo voltará a ter sentido. Até lá, resta-nos (des)esperar pelos dias melhores.

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