Foto: Tim Mossholder / Unsplash
Textos

Naquela noite

O mar é severo, perigoso. Sempre tivera medo do mar. Agarrava-me sempre na tua mão, porque tinha medo que ele me levasse de ti.

Não sei quando começaste a sentir-te assim, só sei que nem percebi. Chegaste a um ponto em que nem jantavas, não me contavas histórias à noite e fui-me habituando às tuas frequentes ausências. Seria mentira se te dissesse que me preocupava, nessa altura, se voltavas ou não. Tinha-te por garantido, quando as pessoas não são garantidas. Elas podem ir embora e não voltar, sem aviso prévio.

Naquela noite de tempestade senti que o meu coração estava apertado demais. Queixei-me à mãe, que sentia o mesmo e fez-me um chá de camomila. Ela murmurava vezes sem fim que ia ficar tudo bem. Não sei se era para enganar-me ou para enganar-se a si própria. No fundo, ela sempre soube que tu já não estavas bem, que já não estavas entre nós. Ainda assim tentou enganar-se, acreditar no contrário do que o seu sexto sentido lhe dizia. Até que o telefone soou e nos despertou no maior susto.

Via tremer enquanto proferia um simples “sim” e rapidamente, sentiu-se fraca. Repetia que tinha as pernas bambas, que estava a ter um pesadelo. Até hoje, gostaria que o tivesse sido.

Naquela noite o mar levou-te consigo, para batalhas ainda mais difíceis de travar. Deixou-nos o sofrimento e a amargura de não te ter por perto. O teu corpo até então jamais deu à costa, deixando-nos esta ferida impossível de fechar.

Quem me dera ter percebido mais cedo que não devemos tomar as pessoas por garantidas, pois não sabemos se as voltaremos a ver. Só tenho pena de nunca ter-te dito o quanto gostava de ti.

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