Textos

Corpo de vidro.

Carta aberta ao meu eu.

Cabiam em mim todos os complexos do mundo, mesmo com toda a injustiça, com todo o egoísmo e poesia que isso possa parecer. Cabiam em mim todos os medos inseguranças e anseios de um corpo que era meu mas que de mim só tinha medo. Medo de se ver, de se sentir por dentro e por fora. Cheguei a pensar que nem era corpo e que nem era meu, com a quantidade de tempo que passei a fazer colagens dos corpos das outras raparigas. Pegava isto daqui, as pernas dali, a barriga, as coxas até que, até colei o sorriso e os olhos. Cheguei a querer colar o brilho dos outros nessas colagens que tomava como modelo e exemplo. Desvalorizei todas essas mulheres quando as trarei pelo corpo e me esqueci que eram pessoas, mais que corpo esbelto em fotos com filtros. Desvalorizei me a mim porque me comparei a tudo e não fui nada.

Cheguei a perder a essência e me magoar, abrir feridas na minha mente porque nunca deixava sarar uma pequena mágoa. O reflexo do espelho queimava e eu nem olhava. Trocava os provadores das lojas de roupa por uma noite a chorar de tristeza por não ser como as minhas amigas. Como as vizinhas, as miúdas das novelas e das revistas. Mas a minha única tristeza que eu tinha, e mal eu sabia, era que eu nem era igual a mim.

Se eu hoje me cruzasse com essa miúda, não, eu não lhe dava um par de estalos, eu dava-lhe um abraço e dizia-lhe que tudo era fruto da sua imaginação. Nós vemos em nós aquilo que queremos ver e enquanto me quisesse ver mais gorda eu iria ver todos os dias, mesmo que deixasse de comer. Porque o amor próprio cultiva-se de dentro para fora, a beleza é uma questão de mente e de paz de espírito. Porque vamos querer sempre mais, quando formos magras vamos querer ser musculadas, e depois já queremos olhos azuis. E por fim, quando somos nós? Quando nos permitimos ser? Ser nuas e despidas de preconceitos, de inseguranças e de lamurias? Quando nos conhecemos.

Foi um prazer. Perdi-me na nossa conversa e mal consegui reparar nas tuas curvas. A tua segurança era maior do que os teus defeitos exteriores que mais tarde reparei, porque todos os temos e quando os aceitamos eles tornam se mais frágeis e pequeninos. E quando me deparei com o teu brilho e com os teus olhos, foi amor à primeira vista. Porque sim, o amor à primeira vista existe, e isso só aconteceu no dia em que pela primeira vez me olhei por dentro. Todas as relações têm defeitos mas eu conheço-te e aceito-te tal e qual tu és.

Porque o corpo é apenas um corpo e por trás de qualquer corpo vais encontrar uma grande Pessoa.

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