Textos

Não me serve mais.

Fechei a porta atrás de mim. Sobraram as lágrimas que deixava para trás enquanto descia as escadas da nossa casa. Ia esvaziando, a tristeza e o peso que tínhamos entre nós.

O comodismo é das caraterísticas do ser humano que mais me assusta. Temos uma tendência muito grande e rápida de nos afeiçoarmos a alguma coisa, mesmo quando é pouco comparado com a nossa ideia inicial. Em termos de emprego, de ponto de vida ou de relações, sejam elas familiares, de amizade ou amorosas. Andamos algemados com um elefante gigante aos nossos pés e tudo se torna mais pesado. Mas não o deixamos ir, não o libertamos porque conversar é demasiado, comparado com o hábito de ficar assim.

Somos pessoas que colecionam e acreditam que quando é uma vez é porque é para sempre. Mas tudo na vida é passageiro, a partir do momento em que a própria vida é efémera. Temos que aprender a aceitar pessoas novas na nossa vida, oferecer-lhes o que de melhor nós temos, nós mesmos. E no fim ter consciência que tudo pode terminar, ou até não ter um ponto final, mas ficar sem mais conteúdo e por magia da vida seguir caminhos diferentes.

Não tem mal deixar ir, quando o lugar não for mais aqui. Quando vai com a brisa é porque chegou a hora de deixar ir, já não vai pesado, já não deixa nada mais que um vazio como marca do que foi bom. Somos o resultado de todas as pessoas que passam na nossa vida e para chegarem novas aventuras, temos que deixar partir as que já não se encaixam mais. É como uma camisola que adoramos mas que não serve mais, mesmo que ainda esteja impecável para usar mais mil vezes, mas fica justa. Também crescemos todos os dias, e os livros de infância dão lugar aos juvenis e aos de adultos. Mas há sempre alguns que relemos, filme infantis que revemos e é natural. Mas outros deixamos de ver, deixamos ir. Assim deve ser com as pessoas.

Quando não te fizer mais sentir tu, leve ou bem, deixa ir. Há memórias boas que ficam e existe sempre a saudade para garantir que foi bom. O problema é que quando forçamos uma relação, parece que começamos a borrar a pintura e de um quadro quase perfeito, torna-se um quadro para esconder no sótão, que perdemos por insistência. A insistência é a distância que existe entre o acabado e o quase perfeito, e normalmente é a distância mais ténue e estraga tudo. Fica com um quadro quase perfeito, porque algo acabado não tem retorno, nem serve para nada.

Por isso deixa ir. Não te conformes na sala de estar, agarrado a um elefante gigante, abre a janela e deixa-te surpreender, pois mesmo em dias de chuva o sol está lá, só tens que lhe dar a oportunidade de aparecer.

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