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Reflexão

Vives ou deixas a vida passar?

Não é como pensas. É como vives. Limitas-te a sobreviver, a engolir o ar, a afastar o mar, a passar os dias como quem passa páginas de revista. A vida é tão mais que isso, enquanto passas por ela feito fantasma, sem deixar pegada por onde passas, sem te marcares em algum lugar ou em alguma pessoa. Vais passando de rajada, como vento que não para porque senão se atrasa, deixando para trás toda a beleza de viver as coisas mais simples e mais bonitas.

Para se viver não basta apenas respirar, é necessário sentir, estar, deixar marcas, traçar roteiros, mergulhar no mar, ser acarinhada por quem mais gostamos. Viver é deixar que nos amem, aprender a amar, aprender a ser presente na vida dos outros e não apenas um estranho passageiro, a quem cedemos um lugar no metro.

Não podemos entrar na vida de alguém, como entramos no autocarro. Não pagamos bilhete para entrar, nem temos a hora de sair. Não sabemos quando teremos de avisar que chegou a hora de ir, mas enquanto estamos não aproveitamos apenas a vista, deixamos algo que seja bom recordar. Nada é eterno e a nossa passagem também não. Só que ao menos devemos deixar que nos conheçam um pouquinho, que nos saibam as entrelinhas e os nós que trazemos na alma por não querer gritar.

Viver é saber desapertar o nó, deitar para fora o que não pode continuar acumulado cá dentro. É saber que sentir pode ser mau, desafiador, só que ao mesmo tempo, libertador.

A maior dor que temos é aquela que mantemos por muito tempo. Só dói muito quando não somos capazes de deixar ir, de perdoar. O nó magoa, a mágoa transforma-se numa ferida exposta que tarda em cicatrizar porque nós insistimos em mantê-la assim, para não tropeçarmos adiante no mesmo erro.

Ninguém nos livra de errar, de magoar, de sentir. Não podemos viver feito fantasmas, onde não sabemos para onde ir, nem onde ficar. Onde nem do nosso propósito temos conhecimento. Não fomos feitos para ser como o vento. Temos o nosso momento para ficar e o momento para partir. Só que enquanto ficamos, enchemos todas as nossas gavetas, encontramos um lar, um porto seguro. Isso sim, vale a pena ser vivido.

Quem tanto tem medo de viver, talvez não sabe ainda que um dia não restará nada disto tudo e que o arrependimento irá sentar-se ao nosso lado e sorrir. Haverá tanto a pedir, tempo irá faltar e a mágoa irá na mesma ficar. Então, vives ou deixas a vida passar?

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