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Era fim e virou jardim.

Quando as lágrimas chegaram eu pensei mesmo que nunca mais iam acabar. Era o fim do mundo sobre a minha cabeça, o meu mundo. E esse mundo que tinha tantas coisas e coisinhas, artelharias e era feito de pequenices. Eu só as olhava a caírem, face a face, como se elas se saudassem e dançassem umas para as outras. Deixei-me cair e fiquei durante horas sentada no chão, a sentir cada pedacinho de mim correr rua a baixo. Não me mexi, não apanhei nem um caco, só os apreciei ir embora como se eu própria desistisse de mim.

Cheguei a pensar que era o fim e que pelo menos depois desta não viria mais nenhuma dor. Que nunca mais me iam tremer os dedos, acordar com um sufoco no peito ou que ia deixar de olhar para fixar apenas num ponto. Acreditava que aquele era o fim que tantas vezes ficara apenas pela ameaça, mas desta vez seria a vez.

Mas com as lágrimas foi a desistência. Não sobrava quase nada a não ser uma terra fértil nova, para plantar. Podia ter ficado apenas com a terra que me sobrava, era o fim e nunca mais iria ter tempo para construir um mundo novo e eu que tantas vezes sonhei ter um anel como Júpiter e tantas luas como Saturno. Chorei durante horas a fio, nem sabia onde as guardava todas, talvez por nunca ter chorado antes.

Quando dei por mim a terra que me sobrava era húmida e rapidamente nasceu uma flor solitária, no meio de terra e mais terra, sem ninguém para lhe fazer companhia. Olhei para o meu lado e de um dia cinzento tinha nascido um pôr-do-sol, daqueles com cores de marshmallows e não estava sozinha. Estavam lá, traziam sementes em forma de abraço e coragem e amizade e tantas outras coisas que alimentam. Que alimentam a alma, porque é apenas disso que falo. E daí nasceu um jardim, uma casa na árvore e vida. O mundo renasceu e olhando para trás, às vezes é preciso desfazer-mo-nos de tudo para começar de vez.

Hoje percebo que não foi o fim, mas sim o grande início. E nada melhor que encher a vida de flores, das minhas favoritas. Sempre ouvi dizer que quando se oferecem flores, sobra sempre um pouco de perfume na mão de quem as oferece, por isso vos ofereci um jardim.

2 comentários em “Era fim e virou jardim.”

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