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Reflexão

Levei a vida debaixo do braço.

Nem sempre, acordo com vontade de explorar o meu dia. Demoro o meu tempo, divagando no meu quarto. Um dos meus primeiros templos foi o meu quarto. Nele já fui mil fases, já tive mil rostos, chorei, ri, desejei, arrependi-me, ouvi música, descobri o amor, degustei o sabor da desilusão, reinventei-me, transformei-me e desabei. Tudo num único sítio, em quatro simples paredes, que tanto sabem da minha história. Sabem mais do que qualquer outra pessoa, qualquer outro sítio. Foi aqui que cresci, que soube o que era dor, alegria, amor. Foi aqui que depois de longas horas de sorrisos forçados, desabei.

Quando saio à rua, debato-me com mil rostos isentos de sentimentos, reflito sobre o que faço no mundo, se deveria ter sequer saído do meu templo. Absorvo a monotonia, encontro as mesmas pessoas de todo o dia, nos mesmos locais de sempre, sendo elas super previsíveis e desinteressantes. Para elas que são surdas, as gargalhadas são nulas, os sorrisos não existem e dou por mim a tremer de medo, porque temo um dia ficar assim.

Vivemos virados do avesso, batalhando por causas perdidas, sem destino. Todos estamos refletidos, fazendo espelho ao outro, reclamando que somos diferentes, quando todos já desistimos de ser alguém melhor, de lutar pelo que verdadeiramente importa.

Poucas coisas nos entendem, nesta vida efémera. A precipitação é um estado que nos persegue, pois tudo cá dentro de molha de tantas lágrimas derramadas, numa noite debaixo dos cobertores. O sol, quantas vezes nos ilumina, mas só dura pouco mais de dois meses e quando se vai, leva tudo o que plantou, não restando nada para a próxima estação.

Ainda assim, vou passando, tentando degustar a beleza da vida, ainda que mal consiga, sorrir de verdade. No fim, somos todos iguais. Não há linha que me separe dos demais por quem passo na rua. As nossas vidas são tão monótonas que dou por mim, fazendo o mesmo trajeto de sempre. Afinal, eles também me veem. Sou como eles.

Para ser um pouco imprevisível, abro a janela do quarto e deixo o vento balançar tudo o que vê, revirando ainda mais a minha mente da atual confusão. Valeu a pena estar vivo, para sentir o vento no rosto. Afinal, ainda existem coisas pelas quais vale a pena estar aqui. O vento encanta-me, desperta-me de um sono demasiado longo, em qual estive submerso tempo demais, fazendo-me escrever sobre os meus antigos receios e as minhas futuras conquistas.

Foram tantas as vezes em que levei a vida debaixo do braço, esquecendo-me de vivê-la. Esta é uma viagem única, com bilhete de vinda e de ida, e enquanto não partimos, há que vivê-la da melhor maneira. Hoje, já valeu a pena ter acordado, pois estar vivo é um privilégio e ainda há tanto a ver, tanto a viver. Hoje é o primeiro dia de uma vida inteira e nós só começamos a viver quando descobrimos o nosso propósito de vida/vinda. Já descobriste o teu?

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