Reflexão Textos

Joelho esfolado.

E eu sorri. Tal inocência fez-me questionar o que nos move, a nós adultos. Todos os dias, quando somos crianças, e nunca pequenos, nos perguntam o que queremos ser quando formos grandes. Mas quem são eles para acharem uma criança pequena? Todas as crianças são gigantes, gigantes dentro dos seus sonhos e da sua falta de limites. Eu queria ser tudo e mais alguma coisa, e agora se tivesse que responder, responderia tudo, menos adulto.

Os anos passam e a vontade de sonhar fica para mais tarde. À noite estou cansada demais para sonhar e de dia, ai de dia tenho muito que fazer. E onde cabem os sonhos? Onde cabe a inocência de ver tudo numa outra perspetiva, mais simplificada e límpida? Onde ficam as nuvens em tons de marshmelows ao pôr-do-sol? Onde fica a esperança de quem sabe encontrar um animal que fale a mesma língua que eu? Onde fica a crença em tudo e em nada mais que a vida. Mas, hoje é tarde, e eu estou cansada do trabalho no escritório, dos relatórios da faculdade, não me apetece sonhar. Porque o sonho dá-me inveja.

Porque sim, tenho inveja das crianças. Inveja branca diria, porque quero que todas elas carreguem os maiores sonhos do mundo, na mochila, na lancheira e na algibeira, mas também eu queria ser capaz de sonhar assim. Imaginar vida em tudo. Olhar o mundo sem filtros, mas principalmente as pessoas. Quem me dera acreditar numa pessoa sem trazer bagagem de outras tantas. Acreditar quem ainda somos todos bons e que o mundo todo é cor-de-rosa e azul e amarelo e todas as cores do arco-íris. Acreditar que aquela camisola já não me serve, mas é a minha favorita e eu quero vesti-la no primeiro dia de aulas. Mas não, hoje procuro a camisa certa, tons monocromáticos para não chocar e cruzo a cor do casaco com a das botas. Vivo alinhada num descarrilamento sóbrio.

E eu parei, apenas queria ver o mundo sem filtro através de uma criança. Criança que passeia de mãos dadas com o avô com a esperança que nunca parta. Que pede ao avô que corra com a esperança que ele seja criança de novo. Que encontra desenhos nas nuvens e acredita que no fim de cada arco-íris existe um pote de ouro, ou de gomas quem sabe. Por momentos, vi-me de mãos dadas com o meu avô e com a criança que outrora fui, que também acreditava em todas essas coisas. E sorri. A lágrima espreitou e rapidamente pensei “sou adulta e não posso chorar”, mas lá foi ela, rosto a baixo e foi ai que eu percebi que também sou pessoa. E que na vida faz falta esfolar joelhos para sentirmos que ainda somos crianças algures nos nossos sonhos.

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