Foto: Ian Liberry / Unsplash
Reflexão

19 anos e uma depressão.

Quando me sentei no consultório da psicóloga, todo o meu corpo tremia, de pavor, de receio, de desconfiança. Até ao momento em que surgiram as perguntas, na minha cabeça só tinha uma única certeza: não sei o que faço aqui, quando estou bem e sinto-me excelente.

Os 45 minutos que estive dentro daquela sala foram os mais intensos de toda a minha vida. Como um fio condutor ou uma bola de neve, os problemas foram surgindo, os desabafos chegaram, as lágrimas abandonaram-me e saí daquela consulta com um diagnóstico em qual não acreditava. Depressão. Como, se me sinto bem? Aos 19? Quem tem depressão aos 19 anos? Não sou fraca! Isto é só uma fase.

Não foi uma fase. Entre os 19 e os 20, a depressão complicou-me a vida. Trabalhei sobre pressão, até chegar à exaustão, querendo mais horas e horas, de mais trabalho. Trazia trabalho para casa. Aos fins de semana, encontravam-me sempre na empresa, não havia um dia em que o segurança não me avisasse de que, infelizmente, tinha de me ir embora. Chegava a casa, com o ritmo do trabalho e não conseguia sossegar a minha mente, para dormir. Aquele outro relatório chamava por mim, aquele e-mail, aquele pedido, o aviso que era necessário mandar, a nota de encomenda que estava por completar.

Passei 1 semana sem dormir. Vários dias sem comer, até que a meio de uma reunião caí dura no chão e só acordei no hospital. Perdera 15kgs, estando com baixo peso. Perdera a cor das faces, a alegria dos dias, os pôr-do-sol e os amanheceres na praia ao fim de semana. Não me lembrava de ler um livro nos últimos tempos, de conversar com um amigo, de me encontrar com alguém para beber um café. Perdi os meus amigos, distanciei-me ainda mais da minha família e fechei-me numa bolha de solidão/trabalho que me devorou até às entranhas, até não restar mais nada.

O meu superior deu-me 2 semanas de férias. Mereces, disse-me, para descansar, para melhorar. Passei os primeiros 4 dias a pedir trabalho por e-mail ao meu colega, ao qual me negou sempre, cordialmente, pedindo-me que fizesse alguma coisa que me fizesse feliz, que descansasse. Andava de um lado para o outro, no quarto. Doente! Estava doente! Adormecida no meu próprio corpo, em piloto automático até que se fez o click! Se desmaiei, então não estou tão bem como penso. Marquei outra consulta.

“O tempo cura tudo, menos a verdade.” – Carlos Ruíz Safón.

Demorei meses a aceitar o diagnóstico que não queria, em que não acreditava. Demorei a procurar novamente ajuda, a curar-me. As doenças mentais são as que mais afetam a nossa geração e irão continuar a afetar as próximas gerações. A taxa de suicídios é absurda a cada ano que passa. Isto assusta, quando ate então vivíamos numa bolha onde tudo parecia estar bem e vivíamos uma vida incrível.

Fui forçada a abrandar o ritmo, a deixar que cuidassem de mim, que se aproximassem de mim. Necessitei de chegar à raiz do problema, para a poder arrancar. Aos 21 anos saí de casa e foi a melhor decisão que tomei. Saí de casa e isso curou-me por completo. Fez-me ter novas realidades, novas experiências, viver a minha verdadeira liberdade, conhecer-me verdadeiramente, a entender e a viver a/em paz. Curou-me porque o que mais me fazia estar longe de casa, era não querer estar em casa, era sentir-me enjaulada, sem privacidade, sem liberdade.

Dos 19 aos 21, grande parte de mim teve de mudar. Abrandar o ritmo não foi fácil. Ir às consultas não foi fácil. O ritmo a que estava habituada foi mudado drasticamente.

A vida corria-me debaixo do meu nariz, sem que a visse, a escapar-me pelos dedos. Vivi, sem ter estado presente, pois não vivi o meu máximo, não fui feliz. Trabalhar o dobro não me fez feliz, muito menos, mais realizada do que os demais, que trabalhavam no seu horário normal, respeitando as suas folgas e dias de descanso.

Depressão não é DRAMA, mas sim uma triste realidade do século XVI.

Aos 19 anos encarava a depressão como um drama feito por pessoas que não conheciam o trabalho. Enganei-me profundamente. Fui altamente injusta com os julgamentos que proferi. Julgamos a pele do outro, sem nos colocarmos no seu lugar. Sentar, conversar, dar a mão, entender, apoiar, são coisas difíceis e pouco encontradas hoje em dia. Pertenci a um grupo de hipócritas e ignorantes por longos anos e bati de frente com todos os meus julgamentos. Quem necessitava de trabalho agora? Era puro drama?

O meu corpo encontrou uma maneira de avisar-me que precisava de descansar e essa mesma foi desligar-se, pois estava demasiado doente para continuar. Uma mente doente não tem forças para tudo, não é invencível. É sim, insaciável, busca mais dor, mais problemas. Busca fazer mais para parecer estar bem, quando está longe de estar.

Estou há 2 anos sem o mesmo diagnóstico. Tenho recaídas como todos. Existem dias “não”, dias em que não me apetece sair da cama e outros em que me apetece conhecer o mundo de uma ponta à outra. Existem dias de grande stress, em que a minha mente não sossega, só que hoje em dia, sei como controlar, como dar a volta por cima.

Não compareço com a mesma frequência de antes à psicóloga, mas adotei a terapia, que me faz um bem danado e mudou imenso a opinião que tinha sobre. A terapia não faz milagres, mas ajuda-nos a desvendar caminhos que nos podem levar a soluções incríveis; faz-nos entender o lado do outro, a ver perspetivas diferentes. A terapia dá-nos soluções, mas as decisões serão sempre nossas.

O ser humano necessita de evoluir. Existe quem esteja estagnado, parado no tempo. Se desejamos ser mais sábios temos também de aceitar outras perspetivas, tentar outras fontes. Há tantas maneiras de chegar ao mesmo lugar, de dizer a mesma coisa. Ao evoluirmos, aprendemos que cada um tem a sua história, o seu caminho, o seu tempo. Cada um de nós, está a aprender, a conhecer-se. Só temos de saber fazer isso sem julgamentos.

A depressão fez-me aceitar que não sou invencível, que falho, que também caio e que não há nada de mal, em cair/falhar. Para aprender precisamos errar primeiro. E que atire a primeira pedra, quem nunca errou na vida! Quando admitimos que precisamos de ajuda, há algo em nós que desperta, seja a vergonha ou a raiva, que acabará por desaparecer, dando lugar ao alívio de poder se transformar.

Estejam atentos às vossas emoções/ações e às dos que vos rodeiam. Tenham cuidado na escolha de palavras, pensem antes de julgar o outro, tentem fazer o bem pelo outro e jamais tenham vergonha de pedir ajuda.

A depressão (tanto como a ansiedade, esgotamento mental, entre outros problemas mentais) é uma doença silenciosa, que não escolhe idades, mas que todos nós podemos vencê-la! E se não acreditarem em vocês, eu acredito por vós! Agora que têm alguém que acredita na vossa cura e em vocês, corram, pois a vida é de uma viagem apenas.

Para quem necessitar de um ombro amigo, sem julgamentos, sem conselhos hipócritas, falem comigo/connosco enviando e-mail para: [email protected].

Se precisarem de apoio em situações de crise pessoal e/ou suicídio: 228 323 535

Para apoio, orientação e formação: 808 237 327

Para apoio emocional e prevenção do suicídio: 969 554 545 ou 808 200 204

Pedir ajuda não é sinónimo de fraqueza, mas sim de muita coragem. Não deixem de desabafar. Deixem-se ser ajudados e tudo irá melhorar. 🙏

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *