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A magia em cada lugar.

Passei naquela avenida onde te encontrava todos os dias, após o almoço rodeado de amigos. Ia para te abraçar, para te ver e passear entre as árvores de mãos dadas contigo. Passei pela livraria do tio onde todos os lançamos do Harry Potter tínhamos uma festa temática. Passei pela escola preparatória, pelos ferros que sempre quis ter força para subir, o campo que parecia gigante nas corridas de Educação Física e naquele bloco de aulas que tantas vezes dei voltas a querer Voar. Passei pela casa onde cresci, por todas as ruas que sei de cor e que me viram crescer. Tantas coisas desapareceram, outras tantas ficar por fazer.

Passei pela escola dos grandes, aquelas escadas que nunca mais acabavam, pela porta da sala 112. Passei pelo campo de treinos de voleibol e de jogos. Passei pela loja das gomas e dos segredos que lá ficaram por contar. Passei pelo ringue onde achava saber andar de skate, onde jogávamos futebol no fim das aulas. Passei pelo caminho mais longo até casa e ouvi todos os sermões por chegar atrasada. Passei pelo parque das noites de verão e dos amigos vizinhos que nunca soube o nome, mas eramos amigos.

Passei pela escola secundária, pelos segredos que aquelas paredes contar, as lágrimas que secaram no chão. Passei pela pastelaria onde almoçamos tantas e tantas vezes. Passei pela casa do meu primeiro grande amor e de tantas vezes esperar ao fundo das escadas. Passei pela casa da tia onde ficamos de férias.

Passei pelo 907 e vi os autocarros que perdi todas as manhãs frias. Passei pela ponte e vi-me seguir cedo e de madrugada em direção à invicta. Passei pela faculdade onde todos os cantos falam de mim, de nós e de todas as horas infindáveis que lá passamos. Passei pelo jardim que me acolheu, que me presenteou com pessoas eternas na minha vida e que me viu crescer tanto. Passei pelo jardim de tantas horas ao sol, a rir, a tocar e a cantar as músicas que sabíamos de cor e que hoje ainda lembramos. Passei pelo miradouro de cerveja na mão, onde pela primeira vez me declarei à pessoa que amo, onde vi o sol cair tantos finais de dia. Passei pela praça onde nos encontramos tantas vezes entre amigos, zangas, gargalhadas e se as paredes falassem iam ter mil histórias que já não nos lembramos. Passei pela estação que tantas madrugadas cheguei e parti, vi chegar e me despedi. Subi ao cimo da cidade, os abraços, os acordes que trinam no ar e a lua ilumina a cidade.

E sentei-me. Sentei-me a olhar-me por dentro, contigo, meu eu que cresce. Tinha em mim tantos lugares que guardavam segredos de pinky, segredos e momentos que hoje ainda me lembro ao passar cada calçada da cidade, ou melhor, das cidades. Se as paredes falassem contavam tanto sobre mim, a pessoa que fui e que hoje passei a recordar. E tantas outras pessoas passaram nos mesmos lugares que eu, viveram as suas experiências. Lugares onde eu ri, alguém chorou. Lugares onde me desiludi, alguém amou. E eu nem sei quem são.

A magia dos lugares é mesmo essa, serem de tanta gente e permanecerem vazios. E a cidade adormece preenchida de pequenos nadas.

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