Reflexão

És jardim em flor.

Às vezes sento-me na cama e tento-me lembrar do tempo em que não pensava em comida. Talvez sempre tenha pensado um bocadinho, pelo menos desde que me lembro. Eu que me queixo de ter sempre tanto em que pensar, e que passo mais de metade do meu tempo a pensar em comida. Não comida no geral, mais propriamente: o que comi, o que engorda, porque comi aquilo e que nunca mais posso comer.

Não conto calorias, recusei-me quase sempre porque achava que era irreal e quase tinha medo de ver. Ou porque na verdade, segundo a aplicação, eu comia menos do que aquilo que precisava, o que na minha cabeça estava longe de ser verdade. Diziam que eu estava obcecada e eu juro a pés juntos que não, até porque eu como tudo. Só que o pior vem no fim disso tudo. Vêm os fantasmas da comida, da barriga, da celulite, o peso, o arrependimento, a culpa e o sacrifício de novo. Na verdade, eu penso mesmo que isto não é estar obcecada, porque nunca pensei em deixar de comer ou em vomitar após a comida.

Tenho medo de espelhos, fujo deles a sete pés. Em todos eles tento acreditar que o problema é do espelho do metro, que todos os dias me achata e me engorda. Fico tempos infinitos a olhar, de todos os ângulos, para a minha barriga, para a minha celulite, para a minha cara. Em todas essas partes encontro mais um defeito, de cada vez que me aproximo, mais e mais perto de mim. E é por isso que fujo.

Tento-me lembrar todos os dias dos tempos em que o meu corpo não era de papel, talvez quando um número não me definia, o número de calças, o número da balança. Respiro fundo e penso que nada disso importa e no mesmo segundo invento novas mil estratégias para emagrecer, deixar de ter fome, deixar de ter desejos de doces.

Quero-me lembrar da sensação de comer e pensar em alegria, na felicidade de cada dentada, de cada sugo de sumo, de cada pedacinho que até comi com os olhos. Mas não consigo mais, porque em cada pedaço de comida estão mil pensamentos destrutivos e no fim a pergunta é: em quem te tornaste?

Mas este pensamento está na sociedade, nas redes sociais, nas telenovelas, mas acima de tudo está no pensamento da cabeça da grande parte dos homens e das mulheres. E é por ai mesmo que devemos começar a desmistificar, de dentro para fora. Se nós nos cobramos e nos mar tratamos em relação a este assunto, vamos sempre permitir que os outros o façam. Porque na verdade, a maioria das vezes, não passa apenas de um pensamento da tua cabeça e não vou dizer que és bonita ou bonito, mas escuta… Transbordas flores de dentro e és jardim por fora e mais nada importa.

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